quinta-feira, 28 de setembro de 2017

vestígios de uma sessão de terapia

Imagino que a minha caixa torácica é a minha prisão. Os cabelos desgrenhados, a roupa amarrotada. É ali que eu vivo. Eu. Eu de verdade. Eu. Não essa reprodução sem vergonha do que deveria ser eu. Sem cor porque sem luz, sem luz porque nada está ligado. Nada. Falta energia. E falta razão. Não se acende uma luz a não ser que se queira ver.
De todo modo, eu estou lá. Presa. É uma armadilha, é claro. Eu poderia quebrar a casca desse ovo imenso com cheiro de enxofre, por que não? Cascas são frágeis. Eu poderia nascer. Eu poderia ter energia o suficiente para iluminar a minha vida. Só a minha. Não quero ser um holofote. Uma luzinha de emergência é só o que eu peço. Eu poderia. Não poderia? Não.
É uma armadilha. Os punhos apertados em um nó de angústia e raiva e solidão. Dou um passo adiante. Com cuidado, muito cuidado. É preciso cuidado pra fazer essas coisas. Então, dou o outro. O outro passo. Ainda estou de pé, os punhos alinhados. Só o que eu preciso é socar a bosta da casca até que ela se abra. Eu sei o que fazer. Não é tão difícil assim.

Mas é.

No próximo passo eu escorrego. Escorrego no óleo na gosma na meleca que me cobre e cobre toda essa casca essa prisão essa caixa torácica. Eu escorrego e então eu sou aquilo. Sou parte daquilo. E eu não consigo levantar. Não porque eu não queira.
(Vocês precisam entender essa coisa de querer. Eu não quero cair. Eu nunca quero. E eu não quero ficar esparramada feito um espantalho que a chuva derrubou. Patética. Triste. Impotente. Eu não quero. Mesmo que eu queira, eu não quero. Se eu quero é porque me fizeram querer. É porque eu não posso não querer. Eu não quero querer. Vocês entendem? Eu espero que sim. Avante.)
Se eu não levanto é porque. A cada. Movimento. Escorrego.

E caio.

Agora, (aqui com a cara na gosma, a gosma na boca, a língua áspera, cada parte do meu corpo afundada nessa merda nessa coisa, que não deixa de ser confortável, ah como é, tão familiar no meio dos meus dedos, um casulo úmido protegendo a minha pele) lembro de quando cheguei até a casca.
Lembro de toca-la. Lembro do espanto. Lembro da felicidade. Da euforia. Lembro de sentir cada lugar escuro e esquecido e desconhecido das minhas entranhas querendo sair. Sair. A luz. Fiquei ali. Parada. Quieta. Sem querer respirar. Fiquei ali. Sentindo. Prevendo. Como seria estar lá fora? Como seria ser de fato? Como seria tomar posse do é meu por direito, de nascença, de sempre para sempre?
Fiquei com raiva. Eu sinto raiva, muita raiva, sempre. 
E eu soquei a casca com toda a minha angústia e a minha solidão e a minha raiva e a minha tristeza.

E só o que eu consegui foi
Cair.
 
Chorei por três meses. Alaguei minha caixa, minha prisão. Quase me afoguei. Por mais três meses fiquei à deriva na minha própria tristeza. E então.
Nada.
Por muito tempo nada. O nada é constante por aqui. O nada do nada. Porque até mesmo nada é alguma coisa, pelo amor de Deus.
E então, deve ter sido ontem ou anteontem, quem pode saber, eu senti de novo. A necessidade, a raiva, a vontade de sair. Eu preciso sair. Eu preciso ver como é que as coisas são com os meus olhos. 
Meus próprios olhos.

Até quando?
Por quanto tempo dá para viver presa dentro do corpo, vendo sentindo comendo com outros olhos e outro corpo e outra boca? Até quando dá para viver como alguém que não se conhece?

sábado, 16 de setembro de 2017

a janela do ônibus

Olho pela janela do ônibus
Um carro prata
Outro carro prata
Mais um
Um caminhão sujo
Motos barulhentas
E os ônibus entupidos de vida
E todas essas pessoas vão.
Correm.
De A a B.
Nem o início nem o fim é sobre amor.
O objetivo não é o amor.
Elas. As pessoas.
Fazendo o que têm que fazer.
Todas essas pessoas.
Nos carros
Nas motos
Nos caminhões
Amassadas no ônibus
Fazem o que tem que fazer.
E não é por amor.
E o que eu faço
Sentada nesse ônibus olhando pela janela me sentindo
miserável
(tão miserável)
Também não é por amor

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

jack's heart

Teu coração adoidado quer bater fora do peito, correr desenfreado, comer três futuros
Incansável
Com um suspiro
frágil
frágil
frágil
Tu pega esse desembestado pelas mãos e diz

– Te aquieta, seu escroto

Tu sabe que por hora, e só por hora, ele te acata
Tu sabe que amanhã, talvez ainda hoje, esse aloprado te escapa,
te faz refém,
te mata.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

o gosto rançoso de avelã

Era quarta-feira, fim de agosto. Um agosto confuso, exaustivo e dolorido. Como o ano todo vinha sendo. Sentei no sofá enorme da sala. Confusa. Exausta. Dolorida. Um espectro. Me deixei ficar em frente à TV porque não sabia bem o que fazer comigo.
A TV ligada naquele canal aberto que faz a bile subir à garganta diante da manipulação deslavada. Mas não foi esse o caso; não dessa vez. O caso foi que. Na chamada de um programa sobre nômades de um lugar que já não lembro, a apresentadora traduz o que o homem, um homem que parece tão confuso, exausto e dolorido quanto eu e aquele ano, diz: não gosto dessa vida, mas não conheço outra. Tenho dó.
Tenho dó porque ele só conhece desertos e barracas e vida sem conforto. Tenho dó porque talvez ele nunca conheça outra coisa. Um restaurante bonito. Ar condicionado no verão. Milk shake de Nutella.
E então, antes que perceba, minha boca se abre e diz
Eu entendo.
Porque eu entendo. Eu entendo tanto. Eu não conheço desertos e a vida numa barraca sem conforto. Eu não sei o que é viver sem endereço fixo. Mas eu só conheço isso.
Eu só conheço o hambúrguer gourmet e o milk shake de Nutella. E a necessidade da casa própria
E do carro
E do emprego
Do bom emprego
Eu só conheço as pessoas que são descritas pelo cargo
E pela idade
Eu só conheço essa vida que é querer mais
Mais dinheiro
Mais corações
Mais coisas
Mais
Mais
Mais mais mais mais
Eu só conheço essa vida. E eu
Eu não gosto dela.
Fiquei pensando nisso, pensei nisso o dia todo. Pensei nisso enquanto eu trabalhava. Pensei nisso enquanto eu almoçava. Pensei nisso enquanto eu ouvia música. Pensei nisso. E debaixo da minha pele eu consigo sentir aquele chamado. Aquela coisa. Aquilo que diz
VAI
VAI
VAI
VAI
Aquele ímpeto, aquele meu Velho amigo. Aquele mesmo. Que sinto e sinto e sinto desde que eu tomei consciência de mim.
E de novo, me perguntei: por que ainda não fui?
Por que
Por que
Por que
Eu não sei por que.
Meu coração esta dolorido hoje.
A minha angústia não é a incerteza. A conta vermelha no banco. O boleto vencido. A minha angústia é o medo de viver sempre e sempre e sempre uma vida que eu não goste.
Até acabar com a vida indo embora. Em uma estrada qualquer. Uma calçada. Um banheiro que não era limpo há dias.
Esvaindo. Esvaindo. Esvaindo.

sábado, 3 de janeiro de 2015

doismiletanto

Doismilquinze chegou metendo a cara na minha frente e me dizendo o jeito que as coisas têm que ser. Mentira. Eu enfiei a cara na porra da fuça de doismilequinze e disse
Minhas regras agora.
Doismilequatorze (quatorze e não catorze, porque é isso que esse ano) foi um desvio. Desviada, não fui eu. Só que fui. Fui eu procurando e não achando. Sofrendo. Chorando. Gritando. Morrendo. Em cima de um coração que é mente e razão e emoção e diz que não
Não aceitaremos.
Não aceitaremos o que não nos cabe, não nos satisfaz, não nos enche a pança de prazer. Porque é (não quis que fosse, por deus, como não quis mas). É. Não sei se é assim que é, que foi, que sempre foi e será ou se é assim que me fiz, me fizeram, me quiseram, me calhou de ser depois de tanto sangrar a cabeça pensando pensando pensando e sentindo sentindo sentindo (porque eu, senhores, eu sinto com os neurônios e penso com as artérias). É só que é assim que é. Que vai ser, que tem de ser. Será.
Eu.
Euzinha mesmo.
Não aceitando.
Não aceito.
Dou embora, digo adeus, não fico, não me sujeito. As horas são minhas. Os dias são meus. A vida é minha. Minha. Minha. A vida. Tão curta. Tão perene. Tão rara. Tão tão tão tão frágil. Se quebra no primeiro passo errado (tropeçou, escorregou, caiu da escada, bateu a cabeça, foi abrir o porta-luvas PUM meteu o carro no poste, hospital, coma, morte.) FRÁGIL. Esse lado para cima. Para cima e acima do que não me aconchega. Não me.
Acomodo.
E o incômodo que foi doismilequatorze me deixou nua. A carne exposta. Crua. Sozinha. No meio dessa cabeça que é
Um campo de guerra.
As ruas da Índia.
A vinte e cinco de março.
Meu guarda-roupa, o seu carro.
Balas perdidas, bagunça e desordem. PUM.
Morreu. Essa vontade não existe mais, deixa a outra entrar, surgir, crescer, me comer, até que PUM. Morreu.
E eu lá. Parada. Paralisada. Em pé. Chorando. Sem mão, mãe, pai. Sem ninguém. Para me ajudar. A saber. O que fazer. (porque ninguém pode. Sou eu. O caminho é meu e sou eu que doo essas bolhas e esse suor no olho). Querendo e desquerendo em dois milésimos de segundos e querendo de novo no próximo.
E agora. Doismilequinze. Trezentos e sessenta e cinco dias para me encher me entupir me enfiar um monte de coragem. Não como um manto cobrindo minha nudez exposta nessa praça em pleno carnaval. Não. Ah não. Doismilequinze há de me vestir, pois sim, pois claro, mas de dentro para fora (o cérebro numa camisa de força, o coração fazendo topless, veja bem). Porque é disso, só disso que eu preciso: doismilequinze e coragem. Doismilequinze, janeiro, fevereiro, março, sem a angústia de abril, agosto, doismiledezesseis. O baile é aqui. A festa é aqui. Neurônios sambam e artérias gritam.
Deus.
Repito.
Deus.
Que assim seja.

sábado, 6 de setembro de 2014

Mais do mesmo: um manifesto em três atos


I
O céu claro está escuro
Não se enxerga sem luz
E a luz não ilumina
Cores frias. A alma reclama
Essa é a hora que se chora
E ninguém vê.

Eu tinha uma tristeza
Até o dia em que ela me teve
Enquanto era eu a rainha,
Vivia em paz (disfarçada).
O manto da angústia
Me pesava

Serviçal
Senti o chicote me rasgando o coração
Veja bem
Acostumada com a dor,
Não me incomodei

Viajava dentro do crepúsculo
A alma, de costume, pranteava
(O que não aconteceu
Nem acontecerá
Livros que eu li
Tantos mundos, tantos)

Quando a tristeza,
A máscara caída,
Enfiou a mão na minha goela
Apertou minha faringe
E disse
(tua língua preta, teu bafo de cadáver):
Teu manto sou eu!
Do alto do teu poder,
Te governo!

Desde então estamos em guerra:
Guerra fria
Na terra devastada
Que é a minha alma.

II
Meu manto pesa uma tonelada
Minha espada está enferrujada
Perdi minhas unhas na batalha
Em algum canto das minhas entranhas,
Reino sozinha uma ilha
sem exército
E sem saída pro mar

Tua mão sem corpo na minha garganta
Tua máscara pegajosa na minha fuça
Me asfixio
(Por deus, são esses meus próprios dedos e é essa minha própria farsa)

Com mais cicatrizes que meu corpo pode suportar,
Caí
Teu manto (que é você) não me amorteceu a queda
Chorei
Gritei
Essa (e tantas outras, tantas) batalha eu perdi
Perdida, me rastejei
(A luz acesa sem iluminar, o céu quase claro quase escuro, cega)

Me levantei, enfim
(E caí novamente. Caí inúmeras vezes. Me levantei todas elas)
(Levantar é tão dolorido quanto cair)
Batalhas perdidas
Talvez a guerra
Talvez eu

Esperança:
Teu amigo,
Meu inimigo,
Me abraça

Eu continuo.

III
E mantenho minha luz acesa
(Minha luz artificial)
(Acesa 24 horas por dia, 7 dias por semana)
Feito um hospital
Minha alma na maca
(O soro pinga
O aparelho apita)

No meu jardim
Eu tento
Plantar
O melhor
(Ou qualquer coisa boa)
Que há
Em mim

A terra ainda está seca
Todas as sementes morrem
As manchas negras
no céu me dizem que vai chover
Espero
Que seja doce a água

Que meu jardim floresça
Cravos, rosas e plantas carnívoras

A guerra
Continuará
E lutarei
Até a terra cobrir meus olhos
E as flores nascerem
Da minha boca



quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Diário de uma ansiedade 26.08.2014

É mais ou menos como estar dentro de uma panela de pressão. Só que você é o feijão, a água fervendo, a panela, a tampa e o fogo. Você é o que sofre e o que faz sofrer. É o que te condena ao cativeiro. E te queima a pele com fogo e a água pelando. Não é toda essa gente abusiva e cruel e inconseqüente. Eles regulam o fogo, é fato. Mas é só. A pressão que pena e faz penar é você. Sou eu, no caso.
Assim como panelas de pressão, minha cabeça também explode de vez em quando. A pressão que eu exerço sobre mim é destrutiva. Suicida. É um pedido desesperado de socorro. Confuso e incompreensível.
Na rua de casa o alto-falante em cima do carro velho e enferrujado grita: consertamos sua panela, panela de pressão, frigideira, cabo da panela. Traga sua panela, dona de casa.

Quem vai consertar uma panela de pressão que só faz penar? Quem vai me consertar?