sábado, 3 de janeiro de 2015

doismiletanto

Doismilquinze chegou metendo a cara na minha frente e me dizendo o jeito que as coisas têm que ser. Mentira. Eu enfiei a cara na porra da fuça de doismilequinze e disse
Minhas regras agora.
Doismilequatorze (quatorze e não catorze, porque é isso que esse ano) foi um desvio. Desviada, não fui eu. Só que fui. Fui eu procurando e não achando. Sofrendo. Chorando. Gritando. Morrendo. Em cima de um coração que é mente e razão e emoção e diz que não
Não aceitaremos.
Não aceitaremos o que não nos cabe, não nos satisfaz, não nos enche a pança de prazer. Porque é (não quis que fosse, por deus, como não quis mas). É. Não sei se é assim que é, que foi, que sempre foi e será ou se é assim que me fiz, me fizeram, me quiseram, me calhou de ser depois de tanto sangrar a cabeça pensando pensando pensando e sentindo sentindo sentindo (porque eu, senhores, eu sinto com os neurônios e penso com as artérias). É só que é assim que é. Que vai ser, que tem de ser. Será.
Eu.
Euzinha mesmo.
Não aceitando.
Não aceito.
Dou embora, digo adeus, não fico, não me sujeito. As horas são minhas. Os dias são meus. A vida é minha. Minha. Minha. A vida. Tão curta. Tão perene. Tão rara. Tão tão tão tão frágil. Se quebra no primeiro passo errado (tropeçou, escorregou, caiu da escada, bateu a cabeça, foi abrir o porta-luvas PUM meteu o carro no poste, hospital, coma, morte.) FRÁGIL. Esse lado para cima. Para cima e acima do que não me aconchega. Não me.
Acomodo.
E o incômodo que foi doismilequatorze me deixou nua. A carne exposta. Crua. Sozinha. No meio dessa cabeça que é
Um campo de guerra.
As ruas da Índia.
A vinte e cinco de março.
Meu guarda-roupa, o seu carro.
Balas perdidas, bagunça e desordem. PUM.
Morreu. Essa vontade não existe mais, deixa a outra entrar, surgir, crescer, me comer, até que PUM. Morreu.
E eu lá. Parada. Paralisada. Em pé. Chorando. Sem mão, mãe, pai. Sem ninguém. Para me ajudar. A saber. O que fazer. (porque ninguém pode. Sou eu. O caminho é meu e sou eu que doo essas bolhas e esse suor no olho). Querendo e desquerendo em dois milésimos de segundos e querendo de novo no próximo.
E agora. Doismilequinze. Trezentos e sessenta e cinco dias para me encher me entupir me enfiar um monte de coragem. Não como um manto cobrindo minha nudez exposta nessa praça em pleno carnaval. Não. Ah não. Doismilequinze há de me vestir, pois sim, pois claro, mas de dentro para fora (o cérebro numa camisa de força, o coração fazendo topless, veja bem). Porque é disso, só disso que eu preciso: doismilequinze e coragem. Doismilequinze, janeiro, fevereiro, março, sem a angústia de abril, agosto, doismiledezesseis. O baile é aqui. A festa é aqui. Neurônios sambam e artérias gritam.
Deus.
Repito.
Deus.
Que assim seja.

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