sábado, 6 de setembro de 2014

Mais do mesmo: um manifesto em três atos


I
O céu claro está escuro
Não se enxerga sem luz
E a luz não ilumina
Cores frias. A alma reclama
Essa é a hora que se chora
E ninguém vê.

Eu tinha uma tristeza
Até o dia em que ela me teve
Enquanto era eu a rainha,
Vivia em paz (disfarçada).
O manto da angústia
Me pesava

Serviçal
Senti o chicote me rasgando o coração
Veja bem
Acostumada com a dor,
Não me incomodei

Viajava dentro do crepúsculo
A alma, de costume, pranteava
(O que não aconteceu
Nem acontecerá
Livros que eu li
Tantos mundos, tantos)

Quando a tristeza,
A máscara caída,
Enfiou a mão na minha goela
Apertou minha faringe
E disse
(tua língua preta, teu bafo de cadáver):
Teu manto sou eu!
Do alto do teu poder,
Te governo!

Desde então estamos em guerra:
Guerra fria
Na terra devastada
Que é a minha alma.

II
Meu manto pesa uma tonelada
Minha espada está enferrujada
Perdi minhas unhas na batalha
Em algum canto das minhas entranhas,
Reino sozinha uma ilha
sem exército
E sem saída pro mar

Tua mão sem corpo na minha garganta
Tua máscara pegajosa na minha fuça
Me asfixio
(Por deus, são esses meus próprios dedos e é essa minha própria farsa)

Com mais cicatrizes que meu corpo pode suportar,
Caí
Teu manto (que é você) não me amorteceu a queda
Chorei
Gritei
Essa (e tantas outras, tantas) batalha eu perdi
Perdida, me rastejei
(A luz acesa sem iluminar, o céu quase claro quase escuro, cega)

Me levantei, enfim
(E caí novamente. Caí inúmeras vezes. Me levantei todas elas)
(Levantar é tão dolorido quanto cair)
Batalhas perdidas
Talvez a guerra
Talvez eu

Esperança:
Teu amigo,
Meu inimigo,
Me abraça

Eu continuo.

III
E mantenho minha luz acesa
(Minha luz artificial)
(Acesa 24 horas por dia, 7 dias por semana)
Feito um hospital
Minha alma na maca
(O soro pinga
O aparelho apita)

No meu jardim
Eu tento
Plantar
O melhor
(Ou qualquer coisa boa)
Que há
Em mim

A terra ainda está seca
Todas as sementes morrem
As manchas negras
no céu me dizem que vai chover
Espero
Que seja doce a água

Que meu jardim floresça
Cravos, rosas e plantas carnívoras

A guerra
Continuará
E lutarei
Até a terra cobrir meus olhos
E as flores nascerem
Da minha boca



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