segunda-feira, 28 de julho de 2014

Sem reticências, sem vírgula.

Sentou na cama e a coberta escorregou pelos seus ombros. Colocou o cabelo atrás da orelha e ainda era cedo demais para suportar o frio que o seu corpo recebeu do ar gelado.  Por três segundo viveu no limbo. No limbo dos que ainda dormem no despertar. Dura pouco. Dura tão pouco. Uma sensação abençoada. Não saber. Mas o frio arrepiou os pelos do seu braço e a fez mexer as pernas. Primeiro colocou o pé esquerdo no chão – não era afeita a essas coisas supersticiosas. O importante é que você levante – levante todos os dias e pouca importa o pé que primeiro toca o chão. Era isso que sua vó dizia. E ela acreditava.
 
Com o pé direito no chão veio a torrente de memorandos cerebrais e a vontade de pular de volta para o meio do cobertor. Era tanto que precisa ser feito naquele dia. Tanto a ser feito e tão pouca vontade. Mas a vontade não importa. Sua vó também dizia. O importante é que seja feito. Que os caminhos sejam percorridos. Então de supetão ela se jogou para a porta do quarto, em outro pulo se viu no banheiro. Se viu. Mas não viu. O espelho ainda estava embaçado do banho do seu irmão. Mas pouco importava. Não era preciso ver. Só seguir em frente.
 
Na hora de se vestir escolheu uma blusa bem fechada. Não queria ter que passar os próximos sessenta minutos com a mão no colo, escondendo os peitos dos olhos ávidos dos tantos homens que pegavam o mesmo ônibus. Achava chato ter que colocar aquela blusa que ela nem gostava tanto só para não se sentir constrangida no caminho do trabalho. Mas que seja. Era de pouca significância a blusa que vestiria. Ela só não podia deixar de avançar. Não por isso.
 
Já vestida, passou pela cozinha num tiro. Estava atrasada. Bem reparou no pão caseiro em cima da mesa, quente feito ar em janeiro. Mas não podia parar. Apressada passou pelo pão, pela margarina, pelo botão de flor que ameaçava desabrochar. Passou pela sala, pelo pai sentado lendo o jornal. Falou tchau. Não esperou a resposta. Não podia esperar. Passou pelo portão e foi-se embora.
 
O dia demorou a passar. Foi uma bosta. Ao telefone brigou com o cliente. Quis dizer-lhe que arrumasse mais o que fazer, colocar o fone no gancho e fazer um chá. Não o fez. Ouviu o chato de galocha reclamar e foi beber o café da máquina. O café era horrível, mas tudo bem. Também diziam que ela era horrível. Quem disse? A moça da copa. Não, foi a da limpeza. Mentira, foi a secretária. Claro que não, foi a recepcionista. Quem se importa? Deixa falarem. Não pode me impedir.
 
Na hora do almoço, o chefe convidou para um restaurante caro. E pagou a conta. Depois quis dar uma volta pelas ruas da vizinhança. Tanta loja linda. Tanta loja sofisticada. Loja cara. O chefe comprou-lhe um par de brincos de ouro branco. Ela estranhou. Mas calada, agradeceu. Era sempre melhor ter do que abanar as mãos. Dizia sua tia. Achou que devia ficar feliz pelo presente, mas só conseguia se sentir meio estranha. Tudo bem.
 
A tarde a cabeça começou a doer. Enxaqueca. A maldita. Há meses vinha se consultando com os melhores médicos da região. Não agüentava a dor, não agüentava. Um médico lhe sugeriu que procurasse ajuda psiquiátrica. Mas ela não estava louca. Louco era ele. Os outros. Sei lá. Continuou com a enxaqueca. Tomou três aspirinas e dois litros de água.
 
Na hora de ir embora o ônibus estava lotado. Teve que ir em pé e mal tinha onde segurar. Ia sacolejando pelas ruas pendurada no puta-merda gigante. Passou por sua cabeça imagens de algum desses livros didáticos que já teve na vida, imagens onde pessoas negras eram amarradas pelas duas mãos num tronco. Espantou o pensamento numa sacudidela de cabelos. Pouco importava. O importante era chegar em casa.

E chegou. Abriu o portão, atravessou o quintal, destrancou a porta, passou batida pela sala. Quase fez o mesmo na cozinha. Reparou nas sobras do jantar que não comeria e estava quase no seu quarto quando a imagem do que viu enfim se formou em sua mente. A flor. O botão de flor que viu de manhã desabrochou. Era linda. Ela não saberia dizer que diabo  de flor era aquela. Mas o vermelho vivo das suas pétalas faz com que voltasse os três passos que já havia dado e acariciasse aquela coisa. Coisa viva. E ela era macia. Era quase como se a flor estivesse respirando no meio dos seus dedos. Lembrou novamente dos livros didáticos e sim. Aquela coisa estava respirando nas suas mãos. Ficou maravilhada.
 
Tão maravilhada que se esqueceu de ir. De continuar. De não parar. De ir em frente. Esqueceu do caminho que vinha percorrendo o dia todo. O caminho da sobrevivência. Da fome. Do ter que. Ela esqueceu o que sua vó dizia, o que o mundo queria, o que ela não podia deixar de. E então ela não só parou como se sentou à mesa. Cruzou as pernas como se fosse um índio (ou era assim que lhe disseram no maternal que se chamava esse jeito de cruzar as pernas) e deixou a bolsa cair no chão ao lado da cadeira.
 
Enquanto pensava na loucura enorme que era ter tanta vida tocando sua pele – tanta vida macia! – pescou da travessa uma folha de alface murcha. E aquela alface era deliciosa! Surpreendeu-se com isso. Surpreendeu-se como o limão azedo podia ser assim tão saboroso. E aquela combinação de alface com limão tinha um gosto tão bom quanto era macia aquela flor que respirava. Ficou maravilhada novamente
.
Estava fora da sua cama fazia quinze horas e essa era a primeira vez que se sentia isso que sentia agora (ou que devia sentir, não por ser isso o que se espera, mas por ser isso que se é). E ela se sentia. Acordada. Respirante. Viva. Humana. Maravilhada e calada.
 
Foi dormir talvez duas ou três horas dali. Deixou uma mancha marrom em uma das pétalas da flor e pensou que talvez sua mãe chamasse sua atenção. Mas não tinha importância. Amanhã abraçaria e beijaria sua mãe e sentiria sua respiração bem perto da dela. Comeria o pão caseiro que seu pai fez pro café da manhã e talvez levasse um pedaço para comer no trabalho. Dormiu feito um – como é que se diz? Anjo. Dormiu feito um anjo. Sonhou com algo assim parecido com o que deve ser o paraíso e na manhã seguinte ficou espantada com aquela coisa se mexendo dentro do seu estômago, a meio caminho da goela. Era mais ou  menos assim que se sentia quando estava angustiada, só que a angustia pesava mais. Três toneladas a mais. Resolveu então não se preocupar.
 
O dia foi mais ou menos.
 
E enquanto lia um livro sobre bonsais, almoçava sozinha aquilo que não era angustia.

Um comentário:

  1. Olá! Há algum tempo tive um blog chamado "Mulher de Jaleco" do qual você fazia parte e sempre foi muito bem-vinda. O blog desapareceu da minha lista e o perdi permanentemente. Estou reinventando um blog... Um pouco diferente pois algumas coisas mudaram na minha vida; contudo alguns dos textos de minha autoria estou passando para o novo blog e passei a seguir vivendo uma vida sob novas perspectivas.
    Gostaria de convidá-la a conhecer e, se gostar, a se sentir novamente em casa. Estou voltando a ser sua leitora.

    Beijos,
    http://jozepaiva.blogspot.com
    @p_living1life

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