quarta-feira, 28 de maio de 2014

Entre o 8 ou o 80 e além.


É gigante.
A minha ânsia é gigante. É imensa. É o que eu chamo de Meu Tudo. E é. É a falta de palavras e é todas as palavras.
É mais ou menos assim.
Acordei cedo. Muito cedo. Não tão cedo que eu pudesse ver o breu da noite, mas cedo o suficiente para ver o sol subindo. Eu acordei esse tanto de cedo. Acordei no frio. Acordei bruscamente. Antinaturalmente (se é que posso usar palavra tão pouco suave). Acordei. E no milésimo de segundo entre abrir os olhos e desligar o despertador barulhento, um furacão de tudo já havia se formado em mim.
Um furacão de tudo. De Meu Tudo. Onde tudo é sentimento, emoção, pensamento. É racional e inconseqüente. Onde tudo é realmente tudo. E o tudo não diz nada.
Por três segundos eu fiz do furacão uma oração. Me deixe ficar na cama. Por favor. Por favor. Por favor. Por favor.
Então eu levanto da cama — eu não quero. Mas eu levanto porque a gente precisa sempre levantar — e esse furacão é calmaria.
Chega a ser paz quando eu olho o céu cor de rosa.
É tudo. Ainda é tudo. Nunca deixa de ser tudo. E o tudo nunca diz coisa alguma. Chega a querer dizer alguma coisa. Mas não diz.
O meu tudo não é mudo. O meu tudo sabe falar. Mas o meu tudo não diz nada.
O meu tudo se cala quando entro no carro e atravesso 40 quilômetros em direção ao que eu chamo de É Preciso.
Ele emudece na velocidade em que a paisagem muda. É quase como se fosse a calmaria, exceto que é vazio. É quase como se o Meu Tudo sumisse. Puf. Poeira cósmica. Puf. Nada.
Mas ele ainda esta lá. E nas quase dezessete horas que se seguem, Meu Tudo acorda feito uma fera a quem não se alimenta há três meses. E então murcha feito um balão jogado no chão ao fim da festa. Até que o Meu Tudo conhece o que deve ser a perfeita paz em Deus. Para então se mexer como se estivessem lhe forçando a andar em brasa quente.
Entende?
O Meu Tudo é o que mora em mim. E o que mora em mim é inconstante. E a inconstância não está em sentir ou em pensar ou em estar ou em ser. A inconstância está em Tudo. Tão inconstante quanto é possível ser. E o Meu Tudo grita, silencia, se vira e se revira e se desvira, abre feridas, cicatriza, e, lúcido, aspira ser o que não é. Qualquer coisa que não o seja.


2 comentários:

  1. menina, essa sufocação esse engasgo...você é uma expressão da arte em estado bruto, sem lapidação, como diria Saramago: não é a estátua, é a pedra.

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    1. Espero um dia ter a disciplina para me empenhar até virar estátua!

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