segunda-feira, 19 de maio de 2014

Ar

Era uma van cinza e lisa. Era desconfortável. Quatro ou cinco pessoas mais jovens e mais promissoras do que eu dividiam comigo os assentos desconfortáveis enquanto o motorista apreciador do "rock'n'roll de verdade" ia aos trancos em direção ao nosso destino. Eu não conversava com ninguém. Eu nunca converso com pessoas. Não pessoas adultas. Consigo lidar muito bem com cachorros, gatos e crianças. Adultos me enchem o saco. Jovens me aterrorizam. De qualquer modo, eu estava na van e estava me sentindo mal.
Estou sempre me sentindo mal.
Nada como estar realmente doente, apenas me sinto mal o tempo todo. Muita dor de cabeça. Naquela noite eu também sentia falta de ar. Meu nariz e seus dois buracos de 3 cm cada não eram suficientes. Era como se tivesse um pedaço de pano esticado nas minhas vias respiratórias, filtrando o ar e me fazendo respirar pela boca. E ainda assim eu não conseguia respirar todo o ar que eu precisava.
Apoiei a cabeça no encosto do banco e deixei o vento da rodovia bater no meu pescoço. Meu cabelo enroscava nos meus cílios e tentava me enforcar enquanto eu ficava ali com os olhos fechados.
Eu me esforçava em não pensar em nada. Em expulsar todos os pensamentos da minha cabeça.
E o principal. Eu nadava contra o oceano de nuvens negras. Eu tentava não me afogar.
Eu tentava respirar.
Repetia, em meio a braçadas desesperadas e o vento da Anhanguera, você sabe respirar. Você sabe respirar. Você sabe respirar.
E respirava.
Uma, duas, três vezes. O cérebro irrigado de oxigênio gritava.
Sai.
Sai.
Sai.
E apagava minha mente.
Minha mente barulhenta.
Bagunçada.
Transbordante.
De nuvens negras.
Um oceano.
E eu consegui silenciar o meu corpo. Foi como não estar.
Por cinco segundos.
(O maior tempo dos últimos tempos).
Mas aí teve a dezena de carros. E a fila deles. E a falta de trânsito que nascia disso. O motorista fã do rock'n'roll de verdade tirou o pé do freio e pisou na embreagem de modo automático. Sem razão. Só instinto. O instinto de sobrevivência é o que chega aos pedais nos dias de hoje. E o banco da van começou a tremer.
Me pergunto se em algum momento aquele chacoalhar despertou qualquer coisa dentro de qualquer uma daquelas pessoas. Eu não sei.
Mas minha caixa torácica balançava junto com o motor da banheira prateada e o tremor acordou minha mente. De uma vez.
Bruscamente.
Minha cabeça volta a zunir com os zilhares de pensamentos que eu guardo de qualquer jeito dentro de mim. Pensamentos barulhentos. Impossíveis. Eu tremo junto com o banco. Minha cabeça grita. Eu não consigo respirar.
Minhas unhas se enfiam nas palmas das minhas mãos.
Eu espremo os olhos como se tivesse acabado de ver um cachorro morto. Um filhote de cachorro morto. Com as tripas para fora.
Eu estou em pânico.
Eu estou em pânico dentro da van cinza com o melhor do rock'n'roll saindo pelos auto-falantes.
Eu estou em pânico.
Minhas narinas agora têm 5 cm de diâmetro cada, mas o ar ainda consegue desviar delas.
O ar gruda na minha pele e gela meu corpo.
Eu penso em pegar um punhado e enfiar nariz abaixo.
Eu penso em tanta coisa. Tanta coisa. Tanta coisa que não caberia bem dizer.
Eu estou em pânico.
Eu abro a boca e sugo o ar, mas é como engolir água. É como engolir um belo monte de nuvem negra. O ar sugado pela minha boca me engasga e eu não consigo fazer com que ele chegue onde deve chegar.
E eu estou em pânico.
Eu estou em pânico porque eu não consigo respirar. Porque eu enfio no cu dez horas do meu dia, porque eu li um parágrafo das dezenas de textos que eu devia ter lido. Eu estou em pânico e meus dedos sangram duas vezes por dia. E a minha boca também.
Eu estou em pânico.
E a Anhanguera parece o próprio inferno, as luzes dos faróis são as chamas do fogo que me queima e te queima e queima a todos nós no fim do dia. Eu estou em pânico e eu tento enfiar um pouco de ar pelo meu nariz enquanto o que eu queria mesmo era enfiar um pouco de vida e de certeza e de luz e de qualquer coisa que seja como soe como “eu sei que” dentro da minha goela.
Eu estou em pânico.
Eu estou em pânico e a minha cabeça dói. Dói porque os pensamentos estouram feito fogos de artifício e meu cérebro sangra tentando contê-los. Eu estou em pânico porque eu não sei querer. Então que quero tudo. Tudo. Quero ver cada um daqueles fogos estourar, coloridos, brilhantes, gigantes, doloridos. Quero olhar para cada um deles sem tirar os olhos do outro. Eu quero tudo. Eu quero tanto.
Eu estou em pânico porque eu estou e não sou.
E eu que não sei querer estou em pânico porque. Eu não sei. Eu não sei o que eu quero comer de janta, o que eu quero fazer no sábado, eu não sei se eu compro um tênis ou uma bolsa. Eu não sei se eu fico, se eu vou, se eu insisto. Eu não sei o que fazer da vida. Eu não sei o que fazer de mim. Eu não sei o que fazer. E eu não sei ser (como é que vocês conseguem ser, pelo amor de deus, alguém me explica).
Eu não sei respirar.

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