segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Cinco ou seis polegadas de náusea





No escuro do quarto só se ve a tela brilhante, a pequena tela brilhante de 5 ou 6 polegadas. A luz artificial estampada na cara é nauseante. Nauseante também são os olhos vidrados nas palavras falsas. Letras manipuladas. É tudo falso. A falsidade também é nauseante. A falsidade dorme ao seu lado. Ao lado de outra falsidade tamanha. Tanta falsidade me dá vontade de vomitar. São tantos olhos percorrendo tantas telas malditas e eu quero gritar. Eu só quero gritar porque não me sinto como vomitando até as tripas. 
Então peço aos olhos que olhem a carne de quem está ao lado. Por perto. Ao longe. Olhem a carne. Eu peço que esqueçam os pixels, que esqueçam o azul, que esqueçam a vertigem que o maldito brilho artificial causa a vocês. Olhem a carne. Olhem, enquanto ela ainda é carne. 
Mas não só olhem.
Os dedos se movem rápidos. Os dedos se movem como se não fizessem parte do mesmo corpo. Enquanto os olhos estão vidrados e as mentes estão entuchadas, os dedos não param. E eu pergunto. E é uma pergunta inocente, quase ingênua, pergunta de quem quer só saber, eu pergunto, quando foi a última vez? Quando foi que seus dedos tocaram com tanto carinho a carne? Com tanta avidez. A mesma avidez com que tocam essa tela? E essa avidez, ela também é nauseante. Toquem! Toquem a carne com a vontade que tocam o curtir, com a necessidade com que tocam o publicar, com a expectativa com que tocam o enviar. TOQUEM!
Mas não só toquem.
E dessa vez eu imploro. Ao olhar a carne, ao tocar a carne, sintam a carne. Sintam a porra da carne. Sintam a pele que cobre os músculos, que cobrem as veias, os vasos, as artérias, quem são várias camadas e são todas tão tão tão. Sintam enquanto ainda são tão tão tão quentes. E ao sentir, perceba. Essa carne um dia será comida. E todas as fotos e todas a palavras e todas aquelas coisas presas na tela brilhante de 6 ou 7 polegadas, todas essas coisas. Você não pode sentir. E agora eu não pergunto, eu questiono: quem não sente ama? É essa a minha súplica: olhem. Toquem. Sintam. 
Amem. A carne, a alma, a mente, com calma, com jeito, com gosto. 
Malucos, ouçam bem, malucos não são os que gritam na sala, gritam na rua, gritam na praça, malucos não são os que enchem de lágrima as salas dos terapeutas. Malucos são os que não gostam. Não gostam da carne, da dor, da vida mundana. Malucos são os que só amam por letras de música e só são felizes, só felizes, em frases prontas. São esses os malucos que acham que sofrer é errado e chorar é errado e querer morrer é errado, e no fim do dia dividem a cama com a falsidade. São esses os malucos que não querem mais ser gente e não querem mais ser carne e não querem mais viver, se não for pra viver numa tela. De 5 ou 6 polegadas. Nauseante.

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