quinta-feira, 13 de junho de 2013

Tem um peixe no meu teclado



Tenho trinta minutos para escrever uma página. Trinta merdas de segundos para escrever o que quer que seja. Passo dez minutos olhando para o cursor que pisca na tela insuportavelmente branca,brilhante, empoeirada, essa tela com um milhão de pixels, ou menos, vai saber. Eu não sei. Só sei bater meus dedos nas teclas. Tap tap tap e a Iolanda vive. E a moça morre. E meu desespero escorre. Tap tap tap. Lá se foram mais cinco minutos. Cinco minutos pensando que inferno que tenho pra dizer. Que inferno eu quero dizer. Não quero dizer nada, essa é a verdade. Não tenho uma vida para contar, um sentimento para externar. Tenho tudo guardadinho em mim, quietinho, quentinho, vivendo aqui.

Mas você precisa dizer alguma coisa. Você precisa dizer qualquer coisa. Alguém que passa na rua, alguém que entra na casa, alguém que nasce. Alguém que vai. Pra não voltar. Tem sempre qualquer coisa esperando pra ser dita. Sentida. Que eu consiga fazer as pessoas sentirem, eu penso. Eu desejo. Que eu consiga fazer as pessoas erguerem os olhos e sentirem com o cérebro o que quer que seja. Porque sentir é tudo que eu posso fazer. É tudo o que eu sei fazer. É tudo o que eu gosto de fazer. E eu quero que o mundo todo sinta junto comigo, sinta por um segundo, que seja. Sinta o que eu sinto, não como me sinto. Que cada um se sinta como se sente. Sentir é bonito.

Meus dedos estão suspensos sobre as letras. As letras que estão apenas esperando. Um misturado de letras, uma sopa. Um lago. O lago onde eu pesco as letras que então são palavras, e as palavras que serão minha peixada. As letras não me assustam. Meus dedos passam por elas com tanta intimidade quanto passam por meus cabelos. “Como você escreve rápido”, me dizem. Mas meus dedos são por demais limitados para acompanharem meus pensamentos. Meus sentimentos. Mas o que eu dizia é que as letras estão apenas me esperando. O cursor está me esperando. A tela branca e brilhantes implora de joelhos pra ser suja. Penso por dois segundos em vomitar. Vomitar em todos esses pixels. Vomitar tudo, tudinho, o que eu sinto. Escrever é vomitar.

Então eu empurro a letra S. Empurro com cuidado, hesitante. Quero dizer que sinto. S. Logo depois viria o i. E então a ânsia seria quase o vômito. E quase tudo o que sinto de fato seria dito. O cursor pararia de piscar na minha cara e começaria a correr por esse céuzão branco e sem fim de uma manhã putamente invernal. Mas.

Os trinta minutos se foram. Os trinta minutos escorreram enquanto eu tentava vomitar. O cursor continua piscando, a tela branca continua me ofuscando. Todos os sentimentos do mundo continuam pesando nas minhas costas. Minhas costas que doem enquanto eu volto ao trabalho, à vida, à cidadania; a moeda ainda circula, a roda ainda roda, a pobreza ainda mata, e  eu saio da minha bolha de poesia e me atiro no bueiro das praticidades sujas do dia-a-dia.

Olhei para o mar por horas a fio, imaginei a sensação da água na minha pele, o gosto de sal na minha boca. Meus cabelos embaraçados e úmidos batendo nas minhas costas. Senti a água passando pelos meus dedos como um bicho pedindo carinho, a água suave. Meu corpo balançando junto com tudo isso que é o mar, que então é oceano, e por fim é quase tudo o que é esse planeta. Olhei para o mar e cada milímetro da minha pele quis estar lá, uma coceira de vontade. Olhei o mar e senti tudo que pude. Então fui embora. 


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