sexta-feira, 21 de junho de 2013

É só mais um monte de whiskas sachê


Quatro horas da tarde. Ou cinco. Ou quase seis. Seis não era. Mas era a hora de levantar. A hora de respirar. Era hora. Sendo a hora, eu levantei. Eu virei. Eu andei. Minha cabeça doía um pouco, mas a minha cabeça sempre dói um pouco. Dói porque é doído pensar quando os receptores de seretonina não funcionam direito.  E você não faz com que funcionem. Doía. Mas só um pouco porque aquele dia eu estava feliz. Feliz como dá pra estar.

A felicidade caía pelos meus ouvidos e se arrastava pelo carpete sujo. E era ali que dava. Que ela acabava. Não porque o carpete estivesse sujo ou porque era um carpete ou porque era ali que aquele carpete estava. Era só porque eu não sabia, e ainda não sei, por quantos carpetes eu vou ter que arrastar minha felicidade até que ela já não se acabe. Até que ela seja e não esteja. E era isso que eu pensava enquanto andava com a cabeça baixa, a cabeça que doía um pouco, os olhos no chão vidrados em futuros que não existem. Pensava em carpetes. E pensava se era o certo, ou o sensato, ou o que eu realmente quero, trocar esse monte de àcaro por pisos sujos de guache.

Era quinta-feira. Quase fim de semana, quase começo da outra semana. Quase. Eu estava quase com dor de cabeça, quase feliz, quase cansada. Quase com frio. Eu usava uma blusa de lã da minha mãe. Uma blusa de lã de um marrom um ou talvez dois tons mais claro que o carpete sujo. Uma blusa grande e confortável e eu realmente me sentia bem dentro dela. Ou quase me sentia.

Quase. Porque naquela quinta-feira, quase seis da tarde, um ou dois minutos depois de eu ter me levantado, ali, entre o carpete e meus olhos vidrados no futuro, bem ali, saía um pedaço de pano listrado azul e branco. Benhaqui. Debaixo da minha blusa com cheiro de mãe. Um pedaço de pano triste e patético e desajeitado. Um pedaço de pano que me bateu na cara. E nessa hora, que era a hora de levantar, um ou dois minutos mais próximos da seis numa quinta-feira quase fria, eu me senti pequena demais, fria demais, idiota demais, dentro daquela blusa.

Com movimentos curtos e débeis eu enfiei o pano listrado pra debaixo da lã, eu empaçoquei aquela bandeira de derrotismo pra dentro da minha calça. Mas o azul e branco também escapava na parte de trás feito o plástico de uma fralda que aparece tímido e inocente por debaixo de mini-calças tamanho 2. E nessa hora eu quis ir embora. Eu quis sair correndo por aquele carpete sujo e todos os outros, esse amontado de carpetes sujos que é a estrada que me assusta. Eu quis ir para minha casa, onde quer que isso seja.

Porque eu não sei. Eu não sei manter minha camisa para dentro da blusa. Eu não sei o que eu quero. Ou se eu quero o que eu quero. Eu não sei se eu quero sorvete de chocolate ou se eu quero o de morango, porque o de creme parece bom. Eu também não sei escolher. Peço uma bola sabor napolitano. E eu não sei carregar minha felicidade para dentro do corpo, eu não sei fazer meus receptores de serotonina funcionarem. Eu não sei como limpar carpetes. 

Eu não sei o que fazer da porra da minha vida. 


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