terça-feira, 2 de abril de 2013

A Primeira Página do Projeto: e s c r e v o.


Eu peço “por favor, me vê 1,4kg de massa cinzenta e branca” e a moça do açougue me olha como se eu estivesse pirada, piradinha, bem louquinha. E eu digo “por favor, 1,4kg de neurônios bem juntinhos, bem rosadinhos, por favor, que haja 78% de água, 10% de gordura, 8% de proteína, 1% de carboidrato, 1% de sal e 2% qualquer outra coisa”. Não entendo o que ela diz, o que escuto é um “supa ora da di”. Mas pouco me importa, eu já não ouço bem o que quer que seja, não ouço mesmo. Tem vírgula, ponto final e reticências entupindo meu ouvido. Respondo num resmungo algo como “ah como eu to cansada”. Meu corpo estremece fonemas.

Eu bato a mão no vidro da vitrine baixa cheia de bicho morto, e pressiono bem, muito bem, as duas palmas naquela superfície gelada, meio molhada, o que vai esquentando debaixo dos meus dez dedos, da minha linha da vida, da fortuna e do amor, da saúde também, talvez, quem sabe. Meu pescoço é uma só nota prolongada, distendida e dolorida. Deixo que ele caia no meu colo, bem em cima do meu pingente em forma de gota. Olho para os meus sapatos. O cadarço da botina tá bem amarrado ainda, o nó tão cego que mal se vê. Apertado, apertadinho. Que bom, que maravilha. Deve dar. Devo conseguir. Ainda vai me levar para qualquer lugar: estrada, oceano, o céu. Penso nisso tudo, penso em como eu posso correr por quilômetros sem tropeçar, sem. Cem mundos eu já percorri, sociedades e civilizações, sentimentos, emoções, depressões. Depressões. E aí me lembro do que preciso. Me lembro e me assusto. 

Minha mão escorregou por uns dois centímetros talvez, e a  marca molhada dos meus dedos ficou no vidro. Minha mão também está molhada. Enfio as mãos dentro do bolsa da minha saia, e disfarçadamente as esfrego muito bem no forro. Esfrego até que sequem. Olho para a moça. E o que vejo é uma máscara atônita colada na cara dela. Me pergunto qual deve ser o problema dessa moça. Ou qual deve ser o meu problema. Provavelmente são minhas olheiras. Malditas olheiras, malditas. Faço uma cara de ué. Uma perfeita cara de ué, como diria alguém que um dia eu inventei. E espero que a dona Moça me responda, afinal, quanto tá o quilo do cérebro. Penso que bom seria se tivesse um monte de miolos bem rosadinhos, bem fresquinhos, recém saídos do forno, quentinhos, quase pegando fogo, o fogo que de fato mora na minha cabeça. Essa maldita cabeça cheia de palavras selvagens, acendendo tochas e fogueiras em seus malditos rituais pagãos. Preciso. Preciso. “Por favor, dona moça, queria uma peça bem fresquinha!” e deixo escapar um gemido de satisfação ao pensar naquela coisinha, não muito maior que as minhas duas mãos juntas, pulsando, cheinha de coisa boa, palavras domesticadas, civilizadas, palavras e rodovias sem buracos. 

Mas agora a moça tá se afastando, tateando o vazio atrás da suas costas, com medo, talvez, de esbarrar em alguma coisa perigosa. A minha loucura, eu imagino, em estado sólido. Eu repito, eu repito com gosto “Moça, por favor, eu preciso muito dum cérebro cheio de sinapses! Moça, moça, moça”. Só que a moça não me entende, não quer me entender, ela só quer saber de andar de costas e fazer aquela cara de medo. Eu olho para os meus pés. Eu penso que posso correr até o próximo açougue. Tudo bem, eu posso correr até o Oriente Médio com essas  botas. Mas eu não quero. Eu não consigo. Eu tenho vontade de vomitar só de pensar em todas aquelas estradas de novo. Aquelas estradas desgraçadas, o sol forte rachando minha cabeça, a luz vindo de todos os cantos, campos, sarjetas, córregos, rios, gente, bicho, a luz que me cega, eu não quero voltar para estrada. E eu começo a gritar,  e ela se encolhe ali no cantinho, bem debaixo do processador de carne, uma criancinha recém-nascida, um tatu bolinha. “MOÇA, MOÇA, EU PRECISO DA PORRA DE UM CÉREBRO”. Eu soco a vitrine de carnes, as veias da mão saltadas. Mas. 

(São meus pés que estão batendo, batendo na terra, no asfalto, batendo, batendo, batendo. Ação e reação. Eu empurro a Terra, ela me empurra de volta. Ela diz "não tente se enfiar em mim, sua maldita, seu lugar é aí". Mas a minha cabeça dói. Meu cérebro dói. Ele está contraído. Ele está corroído. Perguntei para o médico, perguntei para o pastor, perguntei para a terapeuta, perguntei para o guru, perguntei pra minha vó, minha mãe e minha tia, perguntei para todos os meus amigos, conhecidos e até aos inimigos, o que todos me dizem é: Menina, esvazia essa cabeça. Menina, deixa os sujeitos, objetos, artigos, preposições, menina, deixa os pronomes próprios, pessoais e oblíquos, deixa isso tudo escorrer pela sua boca, pela sua orelha, deixa isso aí sair, minha filha)

E agora eu também vou encolhendo, a cara encostada no vidro gelado, meus olhos nos nervos, pedaços de nervos, de bois e vacas e o caralho que seja, meus olhos e aqueles pedaços de carne. Meus olhos, um pedaço de carne. Pulsando. Palavras. Palavras no nervo, fervo, fervendo, crescendo, querendo. Palavras. Querendo. Mas não sendo, jamais sendo. E não sendo, não sou. Eu. Um pedaço de carne, e nervos. E palavras amontoadas. “Por favor, moça” eu resmungo “por favor, só um pedacinho, bem p


 (talvez a última página)

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