sábado, 30 de março de 2013

Divagante e entediante


Encho o copo de cerveja.

Mas talvez não seja essa a maneira ideal de começar a dizer o que eu quero dizer. E o que eu quero dizer é que eu gosto. Eu gosto do gosto que as noites têm e os dias têm e eu gosto do gosto que essa cerveja tem. Então talvez eu deva começar pelo começo e o começo é

Encho o copo de cerveja e encosto na cadeira de plástico, que cede levemente com o peso do meu corpo, que bem pode ser o peso de tudo que eu não deveria comer; cupcakes e barras de chocolate e salames inteiros, e lanches gordurosos  mas o que eu sei é que o que me pesa é todo esse mundo. Todo esse mundo. Toda a beleza dessas árvores e dessa noite passando por entre as folhas verdes, verdes, verdes, o verde que o outono não amarela. Mas estou me adiantando. Encosto na cadeira e sinto o plástico ceder alguns milímetros ao peso dos meus músculos retesados. Respiro fundo bem fundo e mordo os lábios. Ou talvez não, talvez não tenha mordido porcaria nenhuma,mas acredito que sim. Acredito porque estou sempre mordendo meus lábios.

E enquanto a cadeira se molda a mim e a cerveja se espalha em mim,  o que eu posso dizer é que eu não estou aqui, entende? Eu não to nessa porra desse lugar, embora as árvores sejam lindas, a luz da noite passando pelas folhas encham meus olhos de êxtase  Eu não to aqui, ainda que que posso sentir o vento frio nas minhas bochechas. Eu to em algum outro lugar que talvez eu não saiba onde é, talvez eu não saiba como sair. Eu to num lugar que eu costumo chamar de Dentro de Mim e espero sempre que seja esse um lugar real. Tenho um puta dum medo de ficar louca, um medo tão putamente forte, que vez ou outra desejo mesmo enlouquecer de uma vez. Então aqui estou eu: tenho um copo cheio de cerveja na minha frente, uma cadeira de plástico vermelho segurando o mundo que eu carrego nas minhas costas, meus músculos estão retesados. E eu gosto pra caralho disso tudo, apesar de.

Apesar de acordar todos os dias, todos os dias sem exceção  me perguntando, ou a quem puder me ouvir, que porra é essa. Que porra é essa que a gente faz aqui? Que porra é essa de vida? Que porra é essa de mundo? Que porra é essa? Por que, eu me pergunto, porque eu sou quem eu sou e não quem qualquer outra pessoa é? E me pergunto se eu não fosse desse jeito, o mundo também seria outro? E olho pra os meus livros na cabeceira e me pergunto que porra é essa também. Tenho vidas e vidas e vidas em cima do meu criado-mudo. Tenho vidas e mais vidas à minha disposição. Vidas que eu não entendo. Que porra é essa?

Eu não sei. É essa a resposta que me dou, quando a dou. Quando acordo num dia de coragem abençoada e não interrompo o pensamento com medo. Mas, de qualquer maneira, com resposta ou sem resposta, eu só sacudo a cabeça e volto a gostar. Talvez não goste do que vejo no espelho nas primeiras luzes do dia. Talvez não goste mesmo do que prevejo sobre as outras luzes que virão ao longo do dia. Mas eu gosto quando eu saio na rua e vejo o mundo. O mundo que aqui é só algumas ruas e algumas casas e algumas pessoas e seus próprios mundos. Mas eu gosto do que eu vejo e eu gosto do céu que fica bem ali, bem acima de mim, azul azulão azulado, ameaçando cair sobre a minha cabeça a qualquer momento. Eu gosto da resistência da natureza que eu vejo em cada mato no meio do asfalto. Eu gosto mesmo de ver que tem uma coisa, qualquer que seja, que é bem mais que a gente. Que é forte e que luta quando a gente senta pra ver novela. Eu gosto de ver que há, de fato, vida.

E eu gosto da sincronia perfeita que há entre tudo o que é natural - as folhas da árvore que dançam com o vento, o vento que dança com cabelos despreparados, o pássaro que corta o céu, como se estivesse atravessando seu quintal, e as nuvens que se formam, se encontram, se vão e ficam, sempre, uma na outra, até o fim dos tempos. E eu gosto e gosto muito de todos esses gestos que toda gente faz sem saber que faz. E eu observo quase obcecada as mãos que falam, os olhos que vivem e as bocas que se entregam. Nos entregam, eu digo. E digo porque não consigo não sorrir quando te vejo e te penso e te quero.  E eu estou, de fato, sorrindo enquanto te vejo e te penso e te quero, por cima do copo onde a cerveja esquenta.

Esvazio o copo de cerveja.

E penso outra vez como o mundo me enche. O mundo fura meus olhos com um alfinete de prata, e pelo buraco do alfinete ele entra e se instala. Na verdade, ele entra e me entala. Ele me sufoca e faz de mim um balão, assim, leve. Leve, leve. Penso que de tanto pensar eu possa explodir. Eu possa explodir e explodir junto essa cadeira vermelha e a mesa vermelha, e as árvores e até mesmo o céu. Penso isso tudo enquanto pessoas conversando bem ali onde eu não estou e até mesmo fumam entre uma ideia ou outra, soltando fumaças que saem numa espiral, ou não, pelo céu preto. E eu gosto disso também. Eu gosto de ver. Tenho observado muito os dias, todos os dias, o dia todo. Observo, confesso, com a pergunta ("que porra é essa?") no subconsciente, inconsciente, consciente.

Mas, e termino aqui de dizer o que gostaria de ter dito e talvez não pude, quando boto meus olhos em cima do que quer que seja e abro meus ouvidos para ouvir o que quer que esteja passando por aí, eu sei e tenho certeza que sim, que saber que porra é essa é de tanta importância quanto contar os grãos de poeira que pairam na luz das quatro da tarde. O que importa, veja bem, o que importa mesmo é gostar da porra que é essa. E é aquela. E é toda essa porra. E eu gosto. Eu gosto tanto que.

Encho o meu copo de cerveja.


Nenhum comentário:

Postar um comentário