quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Preguiça da Alma Eterna.



A minha zona de conforto é porra de uma zona e fodidamente confortável. A minha zona de conforto é o travesseiro velho que acolhe a minha cabeça conturbada, o travesseiro que cheira a casa e casa cheira a segurança, por maior que seja o espetáculo infernal que é a sua. Casa. Minha zona de conforto é uma casa de vó, abarrotada de enfeites bregas cheios de pó, fotos de crianças angelicais e sorridentes, casais em suas roupas cerimoniais, ah, minha zona de conforto tem até o cheiro que casa de vó devia ter: cheira a comida gostosa, cânfora e remédio. Minha vó é moderna, minha vó não amarra o cabelo branco num coque. Mas a avó da minha zona de conforto é mais vó do que a Dona Benta, e a sua casa é confortável feito uma cama gostosa, os móveis e as paredes são em tons escuros e neutros, a luz do fim de tarde entrando devagarinho pela cortina de renda poeirenta, a TV transmitindo baixinho as novelas bonitas do horário das 18h.

Eu quero chafurdar na minha zona de conforto, eu quero enfiar o nariz nela e sentir o cheiro de amaciante, o macio do algodão nas minhas sardas e o mundo silenciando por dois segundos, enquanto eu me concentro nisso: isso que é unicamente estar onde é sensato estar. Eu poderia morrer na minha zona de conforto, eu poderia morrer confortavelmente nessa porra dessa zona que é a porra da minha vida.

Continuando com as analogias e as metáforas e todas essas figuraças de linguagem batidas, eu sou um cavalo. A porra de um cavalo. Eu tenho uma viseira (ou o caralho que isso chama) na minha cara, e essa porra me faz olhar em uma única direção e essa direção, o campo a que minha visão se limita, é a minha zona de conforto, é ali que é confortável estar e é ali o local para que me dirijo e dirijo, assim, a merda da minha vida. Mas um cavalo, um cavalo que eu sou e todos nós somos, afinal, todos os seres humanos e todos os cavalos, e  todas as vacas e cachorros, e gatos, e todos os ursos, pandas e pardos, todos nós, todos nós não passamos de animais e animais, ah, meu bem, animais são selvagens. Animais são adestrados, animais são confinados, mas, animais ainda são animais. E eu, eu sou a porra de um animal. A porra de um cavalo e o meu cérebro de cavalo é dividido bem no meio, uma machadada de questionamento o divide bem ao meio: eu sou quem quer estar aqui, eu sou quem quer segurança, eu sou quem secretamente gosta da venda e a orientação, mas eu sou a selvagem, eu sou o coração no lugar de miolos, e eu quero sair correndo dessa porra de zona, dessa bosta de zona que é putamente confortável e é fodidamente. Entediante.

A deusa da poesia que me perdoe, os poetas que me compreendam, os sonhadores que não me julguem tão severamente, mas. Sim, é empolgante, de fato. A ideia do vento na cara, o desconhecido ao redor, o novo, a aventura, tudo isso, tudo essa merda utópica que me enche dos pés à cabeça (ah, isso é tão eu), me faz suspirar. Me faz suspirar como uma menina boboca que ainda sonha que os 15 serão melhores do que os 12; os peitos serão maiores, o corpo menos desajeitado. Mas, voltando ao mas - o mas que nos podam ao longo da vida -, eu tenho preguiça para caralho. Isso. Preguiça. Nada poético, nadinha, preferir o conforto à zona. O que posso fazer? Só vive de poesia quem não poetiza a vida.



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