sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Sexta-pai e a felicidade

Era sexta à noite e a minha única promessa era desligar o computador e dormir. Talvez no meio de uma página, uma conversa ou um folk. Não havia aquela pretensão, muitas vezes babaca como só a juventude pode ser, de fazer a noite acontecer: não passamos de pequenos personagens coadjuvantes da própria vida, drag queens pobres e modestos, montados para o que hoje é conhecido como Curtir A Vida. O vento na cara, a bebida no copo, o lábio na gengiva e todo o resto girando.

Não. Não era uma dessas sextas-festas. Era uma sexta e o quase-verão não perdoava a lua, quiça perdoaria mortais, ah, mortais tão imorais, de sofrer com o calor, suor, topor, o sangue borbulhando e a esperança da chuva. Era uma sexta-morta. Uma sexta que a gente não lembra daqui dois ou três dias. Uma sexta que se perde entre tantas outras sextas e quartas e quintas. O notebook queimava minha perna e eu estava cheia. Cheia de todas essas vontades e sonhos e ideias, todas essas coisas que a gente, gente que carrega a utopia no bolso, tem uma ou outra vez na vida, às vezes todo dia. O futuro abraçava minha felicidade e eu queria estar lá e não aqui. Aqui onde o calor frita meu cérebro.

Mas essa não era, afinal, uma sexta-tão-comum. Nessa sexta, ainda que desmontada, o vestido cheirando pele, o cabelo descabelado, os olhos doloridos pela luz artificial, eu senti a vida queimando minhas veias de uma maneira que o alcool jameias conseguiria. A noite poderia se perder entre outras noites, sem dúvida não seria uma dessas histórias para contar para o netos, mas, de qualquer maneira, isso pouco importa. Essa sexta foi como um coice no meu coração e, assim sendo, estava marcada na minha carne como só momentos de verdade, crus e raros, são capazes de ficar. Nessa sexta,a pele oleosa e a caixa de entrada cheia de emails não poéticos, eu tinha a felicidade.

A felicidade, ah, a felicidade que tanto procurei, procuro, sigo, persigo, a felicidade que é o futuro, e o futuro, o futuro agora. Essa felicidade eu vi. Senti. Sorri. Ao meu lado. Meu pai roncava no sofá e isso era feliz! Tão feliz ouvir a vida saindo daqueles pulmões de maneira tão ruidosa. A vida gritando, a felicidade gritando. A felicidade, afinal, não está nos meus possíveis livros, possíveis amores, possível sucesso, a felicidade não está na superação, a poupança gorda, a oportunidade tão única, a felicidade está roncando na minha sala, numa sexta-não-festa, o calor infernal e o ventilador espalhando poeira.

O meu pai, meu paizinho lindo, o pai das conversas tão filosóficas, a crítica no DNA, meu pai dos livros e discos, meu pai que é metade do que eu sou, meu pai é a minha felicidade. O cabelo rareia em sua cabeça tão cheia - cheia dessas vontades e sonhos e ideias, distopia. As mãos com pequenas manchas de raios de sol, a melanina falhando dia após dia. Seus olhos fechados de cansaço, toda a jornada empurrando suas palpebras para o chão. Meu pai é a minha felicidade e ele está no meu passado, presente e futuro. A felicidade é estar aqui e isso a gente tem que admitir: não há sexta-festa, sábado-alcool, histórias para netos, que seja mais feliz do que. Seu pai roncando no sofá. Aqui. Benhaqui. Onde a gente ainda respira.



Tenho vontade de chorar de tanta felicidade!

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