segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Espelho, espelho meu.


Os pés juntos em alinhamento quase perfeito, a coluna ereta, paro em frente ao espelho para montar a pessoa que escolhi ser. Me arrumo para o nada e desejo estar em algum lugar, qualquer lugar onde eu me sinta fazendo parte de. Com cuidado, muito cuidado, diria que todo o cuidado do mundo, passo o batom, o rímel e o blush, penteio o cabelo, não para que o que quebra-cabeça fique completo ou por esmero por essa escultura humana, tomo cuidado para não ficar, nem ao menos por um milésimo de segundo,  dentro dos meus olhos. Bem dentro dos meus olhos.

Às vezes, por descuido ou por distração, que sempre foi meu mal - viajo galáxias inteiras em três segundos, me concentro com afinco no desenho de um graveto, vou e volto, algumas vezes não fico, para dentro e fora daqui, benhaqui - me descubro percorrendo com os olhos a linha escura em volta dos meus próprios. O circulo azul-escuro-quase-negro  de traço grosso contorna minha íris verde-as-vezes-castanha salpicada de pequeno sóis alaranjados, e tenho a impressão de que sua função ali (aqui!) é de segurar o universo que eu carrego nos olhos - um universo feito de grandes mares de quase-tristeza e ansiedade.

Mares em que mergulho quase sempre como uma redenção, querendo nadar e tentando nao me afogar. Poderia boiar - braços e pernas esticados, uma estrela humana, vulnerável ao que quer que venha de baixo ou de cima - nessas águas por três séculos e não sentir a necessidade de retesar um músculo que seja.  

Olho nos meus olhos com um susto e uma surpresa. Olho nos meus olhos como devo olhar nos olhos de qualquer outra pessoa – olho e pergunto, questiono: o que te faz querer estar aqui? Insisto: você é feliz, feliz de fato, com tudo isso? Persisto: o que é tudo isso? Entro em olhos que não são meus como se fosse um pirata sem bússola e com as unhas abro espaço para o selvagem desconhecido, me sinto em casa. Olho nos meus olhos como olharia nos olhos de qualquer pessoa, e quem vejo não conheço.

Sou uma estranha, uma transeunte qualquer de uma rua qualquer a quem parei e pedi para me deixar encarar seus olhos. Olho nos meus olhos devagarinho, o dedo babado testando a superficie quente, olhos nos meus olhos querendo não olhar, minha retina me queima, e quem me olha do espelho me questiona. O que te faz querer estar aqui? Você é feliz, feliz de fato, com tudo isso? O que é tudo isso? Não tenho respostas. Quem me olha as procura, e para isso também usa as unhas para abrir o caminho do desconhecido, avança território selvagem, e eu tenho medo, tanto medo de olhar naqueles olhos (meus olhos) por muito tempo e acabar na beira do fim do mundo que eu sou, tenho tanto medo de cair no abismo que são essas duas pupilas. Ou enlouquecer. Ou, quem sabe, eu enlouqueça na queda. Tenho medo, então desvio o olhar de mim, sem poder suportar mais um segundo dentro do que não entendo. E quero entender, quero conhecer. Preciso. Mas deixo para depois, deixo para amanhã, tenho que ir ao mercado agora, arrumar a casa, terminar o livro da minha vida, tenho que fazer qualquer coisa que me tire desse topor e me impeça de.

Evito. Desvio o olhar. Falta o batom, o perfume e os anéis. Quem eu sou olha para o mundo através dos meu olhos, feito um prisioneiro nas grades do cárcere.
 


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