segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Peguei no sono e esqueci quem sou.



Sangrei por duas páginas e descansei a cabeça no travesseiro. Cada hora parece um pouco mais estranha do que a outra e eu acabo perdendo dias por não saber onde estou – e eu sei, eu sei, eu sei, estou com a cabeça num monte de pena de ganso e poliéster, estou com a bunda no ferro da cadeira, estou com os pés sobre o chão, estou, enfim, viva aqui no planete água, mas, entendam: há um mundo inteiro acontecendo na minha cabeça e existem outras centenas de vidas sendo vividas entre meus neurônios e aqui, aqui benhaqui, senhores, eu não sei onde estou. Quando estou. Se estou. Se sou. Se é azul ou amarelo, se há alguma cor. Não-existo dentro de mim e o meu mundo é sem-eu. Só meu. Tão seu. Meu quintal é onde-não-estou e quero tanto que seja o seu quintal. O quintal do mundo, meu e seu. Entende? Quero que seja singular e plural, coletivo e individuo. Quero ser barroca, mas sou um tanto moderna. Por Deus, eu disse, por Deus, que eu me encontro dadá aqui nesse lugar em que não me-tenho e não me-sou.

Então eu estava de olhos fechados e eu nem ao menos sei em qual hora-minuto-segundo desse dia que é eterno na velocidade da luz eu fechei os olhos. Em alguma hora-minuto-segundo eu deixei de estar até mesmo aqui onde estou. Abro os olhos. Encaro os livros. A quase duas dezenas de livros na minha cabeceira. Não sei se é Anne Rice, Bukowski ou JD. Salinger. Não sei se é Chuck Palahniuk. Onde eu estou? Nova Orleans, Panem ou Hogsmeade? A pilha de folhas bem impressas e compressas se mistura à parede cor-de-nada e eu já não sei os limites da literatura. Os limites de mim. Eu sou a literatura e, então, eu sou a parede, eu sou a pupila-jabuticada sendo tudo – minha íris dilata e engole a quase duas dezenas de livro, um sanduíche de pão de parede, e eu sou o que me preenche.

Eu sou o que me preenche. Eu sou o que me completa. Eu sou o que me transborda. Eu sou o que me falta.

Pisco. Por estar viva e por ser uma vida dentro de um recipiente humano, eu pisco. E pisco outra vez. Pisco. Pisco. Por menos de meio milésimo de segundo o mundo é preto – a tal da manta cor azul marinho cobre tudo que há por aqui e, às vezes, eu me sinto bem para cacete encolhida, aconchegada – chegada -  debaixo de algo que me proteja. Do frio. Do verão. Do frio no verão. Do e da e de. Puxo o cobertor cor-de-madrugada até o pescoço e é tão confortável quanto voltar para casa. Poderia ficar até o fim do mundo com a escuridão até o papo. Poderia não me mover um centímetro – poderia não respirar. O conforto me domina e eu. Pisco. Fixo. Pisco. Fixo.

Mas a minha cabeça vai explodir. Não. Primeiro a minha cabeça vai sair rolando por aí, vai transformar a sua força suicida numa força de atrito com o solo – esse mesmo solo que há de comer meus olhos - e então ela vai explodir. BOOOM! Um milhão de pedaços depois e quem não estava está agora em todos os lugares. Minha cabeça vai explodir. BOOM. Eu puxo a escuridão para cima do pescoço e me fecho num casulo. Seguro a cabeça com as duas mãos e espero pelas naves e o chão se abrir. Eu espero pelo inferno. E. Espero que as estrelas apareçam pelos buracos do manto-azul-marinho. Mas o que eu vejo é o escuro de todas as noites e todos os dias, o escuro que eu carrego dentro da minha cabeça por todas essas festas e bares e conversas casuais. O escuro não explodiu meus miolos, mas saiu pelo meu nariz, escorreu pela minha boca e agora é a Escuridão. É denso. E, às vezes, tenso. Mas é como estar em casa. É tão confortável quanto estar em casa. É tão real quanto: estar, penas de ganso, poliéster e livros-parede.

Mas eu não estou. Não sou. Não.



“Autumn Breeze” by unsociallobster





Divagações de uma memória de galinha.

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