quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Coisas que eu preciso dizer e não sei como: poetizar é a saída. A minha saída.


Estar aqui não é agradável.

Não esses dias.

Estar aqui me faz pensar em como deve ser a sensação dos poros arrombados pela água quente, borbulhante, incessante, de uma caldeirão de ferro sobre mil toras e mil chamas. Quando eu fecho os olhos por um ou dois minutos, consigo mergulhar naquela panela de carne humana, enorme e enferrujada, posso sentir minha pele queimando, minhas veias derretendo, meu sangue em ebulição e então, condensando. Sinto o cheiro de milhões e milhões e milhões de células queimadas, a inquisição no meu corpo e os vampiros da Anne Rice entre meus dedos. E estar lá – naquele pequeno recipiente cheio de inferno – é melhor do que estar aqui.

Estar aqui anda foda para caralho.

E eu ando... como é que dizem? Eu estou “indo”. Indo para o futuro sem estar lá. Indo adiante, junto a com a vida de centenas de cigarras e as margens do rio. Indo sem querer ir. Fugindo sem fôlego a passos curtos, quase hesitantes, passos de quem quer ficar. Eu estou indo. Não quero deixar estar. Não quero deixar, tampouco estar. A minha cama é o leito das lágrimas que não caem e é preciso levantar quando o Sol nasce – lágrimas inexistentes tão cheias de energia, são o impulso vital (essencial, eu diria) para quem quer. Ir. Estou indo. Não bem, nem mal, não tanto. Indo. Porque a outra opção é ficar.

E se estar é foda, ficar é de cair o cu.

Então eu levanto, eu ando, eu paro e eu penso. Mas não penso por muito tempo, pensar é perigoso esses dias. Não penso, portanto. Tento também não sentir, sentir pode ser tão letal quanto pensar e o que eu estou tentando fazer é sobreviver. Ir com a maré até onde der pé. Levantar, andar, parar e. Continuar. Sonhar, se possível. A ilha deserta que eu sou mas não quero ser. Quero ser deserta com nós dois, que, na verdade, somos três, ou quatro, às vezes cinco, não importa, quero ser nós e uma garrafa de whisky, alguma coisa pra nos fazer voar e qualquer música que soe a. Folhas de jasminzeira balançando perto de casa. Quero estar em casa, quero ser a minha casa, desde que a minha casa não seja aqui.

Se for para ser aqui, prefiro não-ser.

Des-ser.

Descer até o fim do mundo, imundo, lúdico e solitário – é o fim do mundo ou o fim de mim? Se for para acabar em merda, que acabe em merda, mas acabe logo! Que deixe de ser, deixe de existir, não deixarei de lembrar. Lembrar dói. Lembrar corrói. Lembrar do que foi e não vai ser, há quem chame de saudade, há quem diga que tanto faz, estamos só de passagem. Há quem diga que. Mas não há quem veja: o meu aqui já não é meu. Já não é aqui. É ali. Onde eu não estou.

E ali... o ali dói para caralho.



Quero um pouco disso. Preciso de muito disso.





Continuação do título:  vomitei versos em prosa e não me limpei - a poesia escorre pelo meu queixo e eu sou um bicho humano não domesticado.

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