domingo, 14 de outubro de 2012

Que doa, então!


O que eu quero mesmo dizer, menina, é que dói. Entende? Dói. Já doeu horrores, já doeu feito a porra de um soco nos rins, e ainda vai doer por. Sei lá? Um ano, ou dois ou três, ou talvez a vida toda. Vai doer quando você passar por aquele motel barato ou quando você passar pela vitrine daquela loja, vai doer quando alguém te perguntar sobre aquele livro ou quando você, desavisada, ouvir aquela música num bar qualquer num dia qualquer. 

Você terá trabalhado a semana toda feito uma puta, uma puta algemada na cama, uma puta frigida. Você terá engolido mais sapos do que pode suportar com ajuda de alguns milhares de calorias a mais, e você terá mesmo se olhado no espelho por uma vez ou duas, se perguntando “Mas que ínferno eu to fazendo da minha vida?” e ainda assim, menina, ainda assim, você será capaz de sorrir quando sua amiga, aquela que te irrita, mas te atura, e você a atura, e vocês se adoram, te ligar e “e aí, gata, tá afim de um bar, uma cerveja, uma pinga, uma batata frita, que seja, me diz que sim, preciso te contar do fulaninho de tal” e todo aquele caralho a quatro. E você pensa eu preciso disso, eu preciso dessa porra, eu preciso a-b-s-t-r-a-i-r, e você responde que “nada me faria mais feliz” e porra, nada seria capaz de te fazer feliz, você sabe e eu sei e então, algumas horas, calças e blusas, sapatos e quase-desistências (ah-to-tão-cansada) depois, lá está você sentada na porra de uma cadeira dobrável, na mesa nojenta de um bar qualquer, na porra de um dia qualquer, ouvindo sobre a porra de um fulaninho qualquer, quando aquela porra de música que não é uma música qualquer, toca. E todos os seus dias de puta, os sapos engolidos, as calorias transformadas em gordura, as olhadas rápidas no espelho, e todas as calças e blusas e quase desistências, tudo aquilo, vai querer sair pela sua garganta, arrancar seus olhos, se enfiar pelas suas orelhas e suas narinas, e vai querer embaraçar seu cabelo, tudo aquilo vai ser só aquilo: Um Grande Monstro das Futilidades Cotidianas. Uma massa nojenta e disforme que, logo, será você. Será você na mesa do bar, os cotovelos grudados na gosma de outros copos, os olhos ali e não ali, os ouvidos não ouvindo porra nenhum sobre o Fulaninho. E isso vai doer. Vai te doer, entende, menina? Porque essa porra dói. This little crazy thing called love dói pra burro. Para caralho. Dói até o inferno e de volta. 57 milhões de vezes. E você ama. E você ama momentos, você ama trechos, você ama refrões, você ama o auto-sacrificio da alma por outra alma. Você acredita que ama. 

Você vai aguentar mais uma ou duas ou três horas de dor e de conversa fiada, você vai sorrir aqui e ali, um ou outro comentário espirituoso, você vai mesmo – com a maior das maiores caras de pau- fingir que ainda é você e não aquele monstro patético, coberto de dor e miudezas cotidianas. Você vai voltar para casa sozinha, um pouco bêbada e muito de saco cheio, não vai ter sol para queimar sua pele ou chuva para se emaranhar no seu cabelo, não vai ter nem ao menos a porra de uma brisa para te lembrar que não, você não está afundada até os ossos dentro de você mesma, que sim, você ainda consegue sentir o mundo – você ainda consegue sentir. Então, menina, você vai abrir a porta da sua casa, vai largar a bolsa no sofá, as chaves no aparador, os sapatos na cozinha, vai deixar a calça largada no meio do corredor, vai jogar a blusa em algum lugar dentro do banheiro, e, enfim, você vai se largar na cama, sendo nada mais do que isso e isso – seja o monstro, uma mentira, uma menina – dói. Ser isso dói. Vai pensar que dói porque o seu Beltrano te deu um pé na bunda, vai pensar que é por isso que o letreiro luminoso do motel te atinge feito dez mil agulhas. Vai pensar até mesmo que a dor é a vitrine da loja e tudo que não pode ter. Vai achar que é a música – que é a porra da nostalgia que te machuca.  No fim, depois de tanto pensar em tudo e em todos e toda a merda de sempre, chegará a conclusão que vai ver é mesmo a porra do amor, que só pode ser isso. É o caralho do amor que te dói, é o amor preso no seu sistema nervoso querendo sair, é o amor dentro daquele livro que te perguntaram sobre. Não é o Beltrano afinal, nem a bolsa de marca, não são aqueles acordes. É o amor. O que você não sabe, menina, é que a dor é você. E o amor também.

- Que doa, então!




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Sou menos que um ser humano qualquer - sou a porcaria de um ser-super-humano-sentimentaloide-e-caralho-a-quatro - e o que sinto é que: sou a pior no que faço de melhor. Juro que volto a escrever quando toda a minha insegurança e etc der um tempo.
 






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