segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Chuva de Gafanhotos


Ele era um cara legal. Ele era um cara legal pra cacete e eu adoro caras legais. Eu adoro caras que sabem rir e deixar que as coisas se resolvam. Eu adoro caras carpe diem porque eu não sei colher o dia – eu não sei qual é a maçã boa da semana, qual está podre, qual está infestada de bichos nojentos, como é que eles se chamam? Bigatos. Eu não sei. Eu pego a maçã que me parece mais lustrosa. E é exatamente isso: lustrosa. A maçã vermelha feito o manto de um Rei, a maçã que brilha como se tivesse sido polida com Lustra móveis – lustrosa. O que é que contam por aí, mesmo? A maçã mais bonita foi que a fodeu com a vida da Eva, não é isso? A mordida na maçã oferecida pela maldita cobra, e a cobra aqui seria o bichinho criado no espaço entre o  meu cognitivo e o meu sentimental, foi a que, ao tocar os lábios da Eva de maneira tão doce e tão suculenta e tão deliciosa – o gosto que só o proibido tem – deixou o simples complicado. Eva teve que cobrir os peitos com folhas e eu tive que cobrir meu coração com uma armadura de latão – tão eficiente quanto um vestido de seda.

Mas o que eu dizia é que ele era um cara legal, e eu gosto de caras legais. Na verdade, eu gosto de coisas legais, coisas coloridas e coisas que fazem rir. Eu gosto do cachorro abanando o rabo pro dono e da menina-criança manchando o rosto de blush e batom. Eu gosto de todas essas coisinhas idiotas e bobas e nada profundamente-denso-tenso-oh-drama-queen, porque eu sou  profundamente-densa-tensa-oh-drama-queen e eu não gosto de nada que seja como eu sou – cinquenta anos em vinte, o elefante da ponderação nas costas e o mundo enfiado nos olhos. E então, eu gostei desse cara legal, que sabia esperar que as coisas se resolvessem e conseguia inspirar fundo dez vezes e soltar o ar por onze e eu lembro do ruído irritante que seu sistema respiratório fazia quando ele tentava se acalmar – quando ele tentava dizer ao seus neurônios e glândulas e toda essa merda hormonal, que não, ele nao estava puto da vida. Mas ele estava.

Eu estava. Puta da vida, puta na cama. Eu estava puta para caralho e eu não queria sistema respiratório chiando por pouca bosta, por lástimas infimas. Eu estava era uma puta barata, dando por nada, dando por que eu preciso dar, preciso rasgar a armadura de seda, arrancar o meu coração e dar a quem queira. Eu, uma puta-barata-que-não-vai-para-cama, a puta-que-ama, estava puta com o garoto-carpe-diem, que, na verdade, não passava de um pulmão barulhento feito o motor de um fusca. Eu tenho um furacão rodando na cabeça, um vulcão em constante erupção no lugar do coração, um tsunami debaixo das pálpebras, eu tenho toda a guerra contra o terrorismo dentro do estômago. Eu, a garota-que-não-consegue-relaxar, não suporto pulmões que chiam. Eu grito. Eu preciso gritar. Eu preciso dizer ao mundo, com toda a força dos meus pulmões-que-não-chiam: QUE ISSO TUDO É UMA MERDA, OK? E eu preciso de alguém que grite comigo, que arrombe os dois pulmões de tanta putisse, de tanto gritar, e que sangre em praça pública, como eu sangro todos os dias por todas as ruas e todas as pessoas e todos esses lugares-tão-comuns, preciso de alguém que tenha o mundo todo na boca do estômago – não um grilo preso na laringe.

E eu digo que: não to afim. Não to afim de te ouvir chiar pro resto da vida. EI, CARALHO, não to afim de te ouvir chiar agora mesmo. Porque você não cala a boca, jovem-carpe-diem? Porque você não aceita que está triste, que é triste duas ou três vezes por semana, porque você não deixa o dia ser só o dia, porque inferno você precisa colher a porcaria do dia, quando ele parece tão radiante debaixo do sol? Por que, todos vocês, todos vocês, idiotas que só querem ser felizes, por que vocês não aceitam que nem todos os dias serão maçãs suculentas ou garrafas de cerveja trincando?

Então eu fui embora. É assim que se diz, não é? Quando a gente não quer mais. Eu fui embora chutando as roupas pelo chão do quarto, eu bati a porta ao sair, eu tropecei numa pedra no quintal e usei todas as palavras feias que eu conheço. Eu tentei abrir o portão e estava fechado, então eu pulei o muro, o choque com o chão fez meu tornozelo reclamar. Mas que se foda o tornozelo, que se foda meu tendão de aquiles que é estar de boa. Que se foda essa merda de carpe diem. E foi assim que eu saí da sua vida e dos outros trezendos garotos-carpe-diem: feito uma selvagem má-educada, praguejando contra o mundo e a merda do dia podre.  

Porque eu sou o que sou e eu não gosto de quem é como eu sou.

Mas eu não sou assim.





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Desculpem-me pelos erros de digitação - a vida é curta e não há tempo para revisão!

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