quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Sobre a Liberdade - a Ressurreição


Não sei ao certo qual era o dia do mês em que ele pareceu. Lembro que era uma terça-feira, três e meia da tarde. Terça, três, trinta. 3ª, 3, 30. Três  ângulos e três lado tem o triângulo. O triângulo é a mais estável das figuras geométricas. Qual seria o mal, então, de um belo de um triângulo amoroso? Meu avô traiu minha avó com a cunhada. Meu pai traiu minha mãe com a prima. José me traiu com a minha mãe. Quando criança, vi minha avó chafurdar na depressão, crente que era um castigo do Diabo o abandono do marido, tendo certeza que sua pobre mãezinha, que Deus a tenha!, pariu o demônio quando deu a luz sua irmã. Vi minha avó chorar por meses a fio, rezando baixinho para santo sei lá o que, pedindo por misericórdia. Por fim, minha avó, coitada, colocou na cabeça senil que a culpa era dela, só podia! Havia pecado. Havia sido uma pessoa horrível, era isso, só podia ser isso! Por que mais Deus a castigaria de tal modo? Por que outra razão Deus faria dela a escória da cidade? Sofreu, então, até morrer. Morreu. Já na adolescência, vi minha mãe passar de batedeira de roupas a batedeira de pintos. Odiou a Deus, odiou a mãe, odiou a filha, odiou a prima do marido, só não odiou o marido. Deus era um filho da puta, a mãe era uma bruxa, a filha era a praga da sua vida, a prima do marido, sem dúvida, era o Exu em corpo de mulher. O marido, ah esse era um santo! Caiu na perdição, a minha mãe. Quis castigar Deus com seus pecados, quis castigar a mãe com a vergonha, quis castigar a filha com um par de chifres, quis castigar a prima do marido chupando o pau de seu filho mais novo. Castigada foi ela. É o que dizem sobre a AIDS: castigo de Deus. Logo, quando meu marido foi chupado por minha mãe, pensei que fosse enlouquecer. Tive certeza que enlouqueceria. E enlouqueci. Por dias me deixei na beira da cama, olhando a luz do sol entrar pela fresta da janela. Repetia como um mantra “triângulo amoroso é a mais estável das relações”. Mas eu era um ponto além do triângulo ABC(fodeu) na reta infinita que é a vida. Eles eram o que eram, eu era o que ninguém queria ser. Ou ter. Até que.

Era uma terça-feira, três e meia da tarde. Eu estava limpando o balcão do bar, esfregando um pano tão sujo quanto o resto da cidade, e tudo o que se podia fazer, na verdade, era uma troca de sujeira: a sujeira do pano pela sujeira do balcão. Esfregava a madeira sem prestar atenção, de fato.  Vivia para dentro. Enquanto esfregava o balcão, lustrava a minha loucura. Essa brilhava em meio aos montes de carne que andavam por esse bar. Minha alma era, e disso eu sei como sei que estou aqui martelando essa maquina de escrever, a mais ilustre entre aquelas almas opacas que ocupavam as mesas do bar. Talvez por isso, e não pela desgraça da família, as pessoas, principalmente moças jovens e puritanas, não ousavam me encarar: eu as cegaria. O bar estava cheio de gente vazia, os corpos transbordantes de cachaça, a vida sentada na mesa mais afastada, assistindo por cima dos óculos a morte rebolar por entre as cadeiras de palha. Havia também muitos mosquitos e o calor infernal, como se alguém tivesse colocado o mundo numa caldeira e deixado lá para queimar. Não havia muito que ver, assim era todos os dias, apenas esfregava e esfregava o pano no balcão, enxugava as gotas de suor na testa com o dorso da mão e olhava pela porta dupla, sempre aberta, o mundo girando numa velocidade negativa. A calçada era tão suja quanto o balcão e, às vezes, minha vontade era de joelhar na sarjeta e esfregar os paralelepípedos com o pano encardido. A faixada da farmácia logo em frente ao bar estava caindo aos pedaços. A última chuva que caiu por essa terra, há treze meses, durou trinta e seis minutos de destruição e deixou um rastro de árvores destruídas, telhados no chão e saudade da água no chão. Da farmácia entravam e saiam senhoras, senhores, jovens e crianças, mas, principalmente, senhoras e senhores. Todos tão amarelados quanto era a vida por essas bandas. Amarelados e encardidos, tossindo velhice a cada três segundos.

Assim passava o meu dia: balcão, pano, bêbados, a vida, a morte, o amarelo e a tuberculose. A destruição e a sujeira, até que a madeira do bar escureceu, o chão amarelo-sujeira adquiriu um tom marrom-fresco, as pessoas moribundas pararam de respirar, enfim, e a Vida soltou um suspiro. Por um momento, tive certeza que preferiria olhar para aquele pano nojento para o resto da minha vida a levantar os olhos e encarar nosso visitante. Era um forasteiro, disso eu tive certeza antes mesmo de ver a ponta dos seus sapatos. Era um forasteiro, eu sabia, pela luz que irradiava da sua alma. A única vez em toda a porcaria da minha vida que eu vi uma alma tão brilhante quanto a minha ou a daquele cara parado na entrada da porta, foi aos 13 anos de idade. Uma escritora da cidade grande passou horas sentada no banco da praça em frente à igreja, rabiscando qualquer coisa em seu caderno amassado. As pessoas a evitavam, assim como já me evitavam. Eu fiquei hipnotizada pelo brilho que saía de todos os poros e dos seus olhos e boca e da sua caneta. Escondia-me atrás de uma árvore seca e ficava o dia todo a observando escrever. Um dia ela foi embora, e desde então havia apenas o meu próprio brilho como a luz no fim do túnel, até aquela terça e aquela alma entrarem pela porta do bar.

- Olá?
Foi essa a primeira palavra que ouvi de seus lábios, foi o primeiro contato que tive com aquele monte de veias e carne e sentimentos brilhante feito uma placa de neon. Antes mesmo de encara-lo.
- Oi.
Minhas bochechas pegavam fogo e eu sentia que poderia desmaiar a qualquer momento, mas era preciso levantar os olhos. Era preciso não ter medo da cegueira. Então, num movimento ocular que bem poderia ter levado três séculos, eu o vi. Primeiro, o tênis estourado. Depois, a calça surrada como se estivesse sendo usada por semanas a fio. Meus olhos, sem a coragem de ir adiante, olharam para o lado: um cigarro por entre os dedos indicador e médio, as unhas pretas nas pontas. Vi a camiseta rasgada, como se ele estivesse vestindo o pano que limpo o balcão. Então, vi seu rosto. Sua barba emaranhada, a boca seca. Vi seu nariz dilatado, como se quisesse respirar todo o ar do mundo. E vi seus olhos. Vi que seus olhos pediam ajuda, não uma dose de pinga ou um isqueiro barato. Seus olhos buscavam qualquer pedaço de pedra em que se agarrar, enquanto temiam o abismo abaixo de seus pés. Ali, numa terça-feira quente, às três e meia da tarde, estava parada na minha frente a alma mais brilhante que já vi na vida. E ela estava coberta de sangue.
- Você pode me ajudar?
- Claro. Vem.
Meus dedos soltaram o pano sujo. Não sei ao certo se pisei nele, ou se o chutei para debaixo do balcão. Não me lembro de ter subido a tampa de madeira ou passado pela porta do bar. Não me lembro das pessoas que nos encaravam sem nos ver, por serem incapazes de ver qualquer coisa além da desgraça. Lembro apenas como a camiseta grudava em seu corpo, machas de suor e sangue, como sua pele encardida parecia ter vivido mil anos. Naquele momento, eu juro, eu faria qualquer coisa para salvar aquela alma brilhante da morte. Não me interessava saber de onde ele veio, para onde iria, não queria saber seu nome, sua idade, a história da sua vida. Eu só pensava em fazer com que ele ficasse bem. Eu só queria que ele sobrevivesse. E a cada passo que ele dava, a cada expressão de dor que eu via em seu rosto, maior era o meu desespero. Os nove minutos entre o bar e a minha casa passaram como se deve passar três minutos no inferno: a eternidade.

Entramos em casa e eu tranquei a porta. As janelas já estavam fechadas, como sempre estiveram desde que José me deixou. Levei o forasteiro da alma brilhante para o meu quarto, e fiz com que se sentasse na beira da cama. Ele não fez objeção, apenas deixou-se ali, olhando para os raios de sol que entravam pela fresta da janela, como se aquela fosse a luz que o levaria ao céu. Eu parei na porta do banheiro e fiquei a encará-lo. Não conseguia tirar meus olhos daquele pedaço de vida. Vida de verdade. Vida quase não sendo mais vida. O sangue seco em seu rosto me hipnotizava, era como se eu pudesse salvá-lo apenas encarando aqueles machucados por tempo suficiente. Eu poderia ter ficado ali por horas, talvez o dia todo, quem sabe a semana inteira, sem me dar conta do que estava fazendo, se ele não tivesse desviado o olhar da janela e se virado para mim. Se eu estive me sentindo abalada desde que ele entrou pela porta do bar, aquilo não se comparava a nada. Em três segundos eu senti o meu mundo não sendo meu, mas dele. Em três segundos eu soube que eu já não era mais o que eu costumava ser. Eu já não era quem ninguém gostaria de ser. Ou ter.

... continua (ou não)





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