quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Die, people, die


Se havia alguma maneira de explicar como eu me sentia – ou não me sentia, eu não a queria. Eu a desprezava, para falar a verdade. Os dias passavam numa velocidade vertiginosa e em algum ponto eu simplesmente deixei de viver. Por viver eu quero dizer sentir. Sentir é viver. E não havia sentimento ou vida ou qualquer coisa que me fizesse agradecer por essa sucessão de batimentos cardíacos. Naqueles dias, eu simplesmente estava. Andava pelos corredores daquela faculdade idiota e imaginava cada tijolo sendo feito por um par de mãos que eu jamais toquei. Queria gritar para as luzes fluorescentes que isso é uma merda, é uma puta merda abrigar-se em tijolos e não agradecer a quem os fez. Nem ao menos saber quem os fez. Era essa minha vontade: berrar com aquele pedaço branco de luz artificial. Mas que culpa tem a porcaria da lampada? Ela também foi feita por mãos que nunca vi, e isso era triste demais. A cada passo que dou, estou cercada por fantasmas, as pessoas estão em todos os lugares, na roupa que eu visto, no sapato que eu calço, no shampoo que deixa meu cabelo com cheiro de erva cidreira. As pessoas estão até mesmo no meu hálito fresca e no monte de comida triturada dentro do meu estomago. As pessoas estão em todos os lugares, menos aqui. Raca maldita, eu quis gritar, ou, ao menos, dizer em alto e bom tom. Raca maldita. É capaz de cercar e aprisionar o próximo e ainda assim, não estar lá de fato. Vinha andando pelos corredores tao iluminados quanto deve ser a entrada do céu, pensava em todo o ódio que um dia eu tive por toda a humanidade desumano, todo o ódio que um dia eu senti, quando eu ainda sentia. Andar por aquele corredor era como caminhar por horas num corredor de impressões humanas, impressões opressoras colocando-me no meu lugar: aqui. Não na Pensilvânia dos meus sonhos, não na Grécia dos meus delírios, não num mundo paralelos do meu mais profundo desejo, mas aqui. No agora. Aqui, de onde é impossível escapar. A menos que a loucura lhe bata na porta e te convide para um passeio em qualquer lugar. Naqueles dias em que mundo flutuava ao redor da minha cabeça e meu peito doía pelos caminhos que reneguei para estar ali/aqui, eu segurava o celular com as duas mãos, os dedos apertando o plástico até não haver sangue nas articulações, e pensava: o homem construiu impérios, os derrubou também, o homem inventou comidas, e as privou também, o homem implanta coração de um alguém em outro alguém, o homem, esse demônio de carne e osso, foi até mesmo capaz de pisar na lua, mas o homem, não inventou, ainda, um jeito de ligar para a Loucura. E eu, olhando fixamente para aqueles tijolos, não queria psicólogo para me dizer o que se passava comigo, não queria um rio de dinheiro para me tirar dessa merda de letargia, meus olhos seguiam a linha de concreto por entre os tijolos e eu, mas que caralho, não queria nem ao menos um amor por toda a eternidade. Eu, sozinha entre fantasmas, aprisionada na humanidade, eu só queria tomar um chá com a Loucura. E passear por qualquer lugar. Que não aqui.


Um comentário:

  1. Oi Camila, tudo bem? Gostei do teu blog, meus parabéns. Já estou te seguindo. Voltarei com mais tempo para continuar lendo. Também gostaria que você fisese uma visita ao meu blog onde posto minhas poesias, se você gostar, ficarei feliz em tê-la como seguidora. Abraços do amigo Bicho do Mato.

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