quarta-feira, 11 de julho de 2012

Olhos, livros e pânico


Olhando para o céu preto feito carvão não era possível adivinhar em que estação do ano se encontravam. Podia ser primavera, inverno ou verão, qual a diferença? As flores não nascem na lua e as estrelas não se encolhem de frio. Apenas o suor escorrendo entre os peitos e atrás do joelho lhe dizia que era verão. A noite mais infernalmente quente desde sei lá quantos anos, segundo a mocinha com cara de tábua do telejornal. Engraçado como algumas pessoas tem a cara tão comum quanto um pedaço de madeira. Pensou se por acaso seria assim também, uma pessoa-tábua, mas os olhos feitos jabuticabas não deixariam que tal sem-gracisse a acometesse; desde pequena ouve homens, mulheres e crianças lhe dizerem que belos olhos você tem, parecem duas bolas de gude, ou ainda, cara, você tem dois buracos negros na cara! Olhos tão negros quanto esse céu de verão. Quando na pré-adolescência, passava os dias odiando qualquer um que possuísse olhos castanho-claros, imagine então os azuis! Não suportava olhar no espelho e não enxergar as pupilas - era como se não enxergasse a si própria. Não demorou muito e sacou que não era preciso olhar para dentro - ela estava dentro. E quem quer seja que estivesse fora era melhor mesmo que não conseguisse ver a sua alma. Sua alma tão escura quantos os olhos e o céu de verão. 

Estava deitada no quintal da sua casa enquanto divagava sobre coisas fugazes. Logo após o jantar esticou um lençol no piso quente e apagou a luz da área. Não queria que ninguém a visse ali, embora todos soubessem onde estava. Tudo o que precisava nessa noite de quarta-feira era paz. Silêncio. Solidão.Só queria poder não existir por alguns horas, afim de tentar entender o que se passava em seu interior.É claro que a visão daquele garoto na sua sebo favorita havia lhe confundido os sentidos. Desde que consegue se lembrar nunca havia entrado numa livraria, revistaria ou sebo sem carregar um livro embaixo do braço. Não que lesse todos os livros que comprava, mas tê-los por perto era como estar em segurança - livro por livro construía seu castelo. E hoje lá estava ela concentrada na sinopse de um livro com a capa marrom e cara de já ter passado por várias mãos, quando aquele garoto a abordou e lançou o odiável "oi, posso ajudar?". Ah, como era irritante entrar numa loja e ser atacada com essa pergunta! Era por isso que preferia lojas de departamento e compras online. Era por isso que gostava daquela sebo - ninguém nunca a importunava lá. Talvez porque nunca houvesse alma vida entre aquelas prateleiras - a não ser o dono, um velhinho cheio de tatuagens e cara de quem curtiu a liberação sexual nos anos 70, sempre afundado demais na ressaca para atender seus raros clientes. E ali estava aquele menino alto e magricela parado atrás de mim esperando que eu reagisse de alguma maneira a sua pergunta carrancuda – era óbvio que ele queria estar ali tanto quando eu o queria. Só o que eu lembro é que as minhas bochechas pegaram fogo, minha boca secou, e quando eu me virei, pronta para dar um sorriso amarelão e dizer um fraco “não”, tudo o que eu consegui foi derrubar o livro no chão assim que meus olhos encontraram com os olhos tremendamente azuis daquele garoto. Lembro também como a expressão dele imediatamente suavizou-se, como ficou um vazio contemplador onde antes havia uma carranca mal-humorada. E é isso. A próxima que eu sei é que eu estava sentada no banco da praça, em choque, as mãos encharcadas com uma mistura de suor e do sangue que saía das marcas que minhas unhas deixaram, as pernas bambas, não, o corpo bambo.Tremia da cabeça aos pés e não havia resquício de saliva na minha boca.
Dois anos sem ter um únicozinho ataque de pânico e agora tudo estava de volta como se nunca tivesse ido embora. Era como se aqueles olhos azuis tivessem desencadeado uma tempestade em mim. E não havia onde me abrigar.

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