segunda-feira, 30 de julho de 2012

O colar da morte e algumas lembranças

Estou largada na cama com um livro na cara, mergulhada em outro mundo, quando eu percebo. Ele está aqui. Ouço o barulho da chave na porta, ouço suas botas esfregando no tapete da entrada. Ele fecha a porta e sei que está parado no corredor em frente à sala, as mãos largadas ao lado do corpo. Ele sempre faz isso ao chegar em casa. Uma vez ele me disse que era para sentir que estava de volta ao lar, para ter certeza que pertencia a algum lugar, nem que fosse apenas a alguns metros quadrados. Então ele começa a andar e eu começo a me levantar. Ele vai caminhando pela casa e eu vou me arrastando para o canto do quarto. Ele abre a geladeira e eu fecho os olhos. Ele está avançando território, seu território, e eu estou me encolhendo. Me recolhendo. Fecho os olhos e fujo para um lugar da minha memória, enquanto ele respira o presente.

Não era uma casa grande, tampouco havia luxo. A gente acabava sempre dormindo na rede pendurada entre as paredes da lavanderia, o cheiro de amaciante e mijo de cachorro sendo aspirado pelos nossos narizes cansados do ar sujo da cidade. Não era uma casa onde se podia fazer um jantar para os amigos sem sentir vergonha - da parede mofada ou do piso quebrado tentando escapar por debaixo do tapete de feira. Mas era uma casa em que a gente gostava de estar. Era uma casa que enchia a gente de bons sentimentos e lembranças amarelas, como aquele verão em que a chuva persistiu por três semanas seguidas, a ventania derrubou a árvore e quebrou a telha. O mofo na parede da sala é só uma lembrança das nossas três semanas eternas de tranca e brigadeiro, o saco de pão chegando  molhado da rua, os nossos pés juntos, apoiados na parede e a água escorrendo por nossos dedos. A mancha na parede não me faz amargurar a pobreza em que vivíamos, mas me acaricia como uma luva aveludada, cheia de memórias em pó entre os dedos, me fazendo espirrar e, às vezes, até mesmo chorar. E eu choro. Choro porque na nossa casa nova tem uma vida nova, uma vida que não me permite andar só de calcinha e camiseta enquanto a chuva cai. Não porque tenha gente demais por esses corredores - o que, com certeza, não há - , mas porque tem você de menos, e sem você não há vontade em mim de mostrar as pernas. Era você que adorava minhas pernas. "E essas pernocas, boneca? Quando vou poder levá-las para passear?". Você era mesmo um puta cara de pau, considerando sua camiseta furada do Ramones e seu tênis com uma abertura na parte da frente como uma boca banguela. Mas você me dizia "que belas pernocas, boneca, que belas pernocas" e me oferecia um cigarro do seu maço amassado e eu simplesmente não podia recusá-lo, mesmo não fumando. Eu jamais poderia negar qualquer coisa que viesse de você. E assim eu deixei seu amor entrar. Para me destruir.

O primeiro golpe dessa guerra de uma só pessoa me deu essa cicatriz na sobrancelha. Eu sei que você nunca teve a intenção de me fazer cair, tampouco desejaria que a minha cabeça acabasse naquele pedaço de azulejo quebrado. Você não queria mesmo que minha cabeça abrisse e começasse a sangrar, mas, meu querido, você fez meu coração sangrar, o que há demais em ver minha testa partir ao meio? A mancha de sangue nunca saiu do cimento. Havia o piso em padrão geométrico pela casa toda e ali, bem no meio da sala, um quadrado com uma mancha de sangue que poderia ter sido um punhado de ketchup. Minha cabeça bateu no chão e estourou como um pote de ketchup. A culpa não foi sua, sweetheart, mas você poderia ter amortecido a queda. Se estivesse em casa. Se não tivesse encontrado outro par de pernas que te atraíssem mais do que o meu. Do que minhas panturrilhas manchadas com as marcas das minhas unhas, a parte superior em frangalhos, a carne dividida entre cortes de estilete. Você já não passa a mão por meus joelhos. Nem ao menos toca meu rosto. Você diz que tem qualquer coisa na minha pele que te queima. Você diz que deve ser o gelo da minha tristeza. Você diz tantas coisas. Você diz que não pode me deixar, mas não é esse o caso. Você diz que venderia a alma pro diabo para conseguir me abandonar, mas nem ao menos o diabo quer fazer um negócio desse. Nem o diabo quer ter qualquer coisa ligada a mim, então você continua aqui. Porque você me ama, você diz. Você não consegue deixar de me amar. Você consegue passar meses fora de casa, vivendo com outra mulher, ou comendo outras tantas, mas em algum ponto você tem que voltar para poder fumar um cigarro enquanto olha nos meus olhos. Você me odeia por isso. Eu te odeio por ter me feito te amar, você grita, você me fez me amar com essas suas pernas do inferno e seus olhos de demônio. Você me enganou, bonequinha de voodoo, você fodeu a minha vida. Eu te ouço. Eu não seria capaz de não te ouvir, de impedir que suas palavras penetrassem cada membrana plasmática das minhas células semi-mortas. Eu não pude impedir quando me dizia palavras conquistadoras, eu não poderia agora que tenta me transformar em um monte de ruínas. Apenas te olho do canto do quarto que ocupo a cada vez que você retorna para casa. Me encosto onde o sol jamais esquentou e sinto o frio do cimento dos meus ossos, te vejo sentar na cama em que me deito todas as noites e todos os dias, te vejo soltar baforadas de fumaça em direção ao teto. Te vejo, apenas. Não te escuto e não te sinto. Não é como se você estivesse ali. Em todos os meus sonhos te vejo, você sempre tão encantador enquanto posa de bad boy no bar da faculdade. Você  tão sedutor com seu jeito de moleque perdido. Você parecendo um menininho solitário quando me conta seus medos, seus olhos pregados aos meus, procurando uma salvação. Sonho com suas mãos nas minhas pernas e seus sorrisos nos meus lábios, hora após hora. Mas quando você sobe as escadas, abre a porta e senta nessa porcaria de colchão cheio de pulgas, você é meu pesadelo.

Quero te dizer para ir embora, para apagar essa merda de cigarro, para tirar as botas da cama que agora é só minha, quero dizer que essa não é nossa casa, nunca foi. Quero falar para você que cansei das suas palavras maldosas e que eu não tenho olhos de demônio, mas você sim, você é o próprio demônio. Preciso dizer que não suporto mais ouvir as vizinhas fofocando sobre sua atual vadia, que os adolescentes são cruéis e fazem piadas sobre os malditos galhos que você colocou na minha cabeça. Mas eu não consigo. Eu simplesmente não consigo. Como eu não conseguiria molhar a mão direita e deixar a esquerda seca, eu não consigo viver se a minha vida não estiver ligada a sua. Ouço minha mãe dizendo que isso é babaquice. "Leve um tapa na cara todos os dias e você vai acabar achando que isso é amor. Isso não é amor, isso é burrice. Você tem que mudar o padrão. Eu apanhei por 50 anos antes de mudar o padrão. Só agora sei o que é amor. Amor não faz parte de padrão algum". Eu desligo o telefone na cara da mãe. Não quero ouvi-la repetir as palavras que ecoam na minha cabeça. Abro os olhos para espantar aquela voz velha, aquela maldita voz a beira da morte e, ainda assim, tão mais viva que a minha própria. Abro os olhos e te vejo olhando para mim. Você olha fixamente para os meus olhos e não há que me faça desviar. "Você quer um cigarro?" E eu que não fumo, aceito. Seus olhos não desgrudam dos meus enquanto levanto e caminho até a cama. Há anos não fico assim tão perto de você. Você me estende o cigarro enquanto procura o isqueiro no bolso da calça. "Está na camisa" eu digo "ele está sempre na camisa". Você sabe que sim, mas sua cabeça existe em outro mundo e você insiste em procurar o isqueiro no bolso da calça. "É. Sempre está". Eu me abaixo e para que ele acenda o cigarro, nossos olhos em órbita, como se ele fosse a Terra e eu, a Lua. Quero me afastar. Quero piscar. Quero fazer qualquer coisa que acabe com esse momento de hipnose, percebo, então, que os últimos vinte anos foram assim. Eu tentando me livrar do que quer que seja que eu sinta por ele, ele tentando se livrar de mim. No fim, nós dois num quarto escuro, a fumaça do cigarro e nossos pés juntos.

Os segundos passam. Os minutos passam. Os anos passam. Não sei qual minha idade, não sei em que época me encontro. Já não sei, ao menos, os traços do meu próprio rosto. Só tem seus olhos, o preto da sua pupila refletindo a luz que entra pela janela. Só tem aquele fogo que eu conheço tão bem que não tenho medo de me queimar. Só tem você. Como sempre foi. Posso ouvir a voz do Bob Dylan cantando "you're beautiful", posso ver as luzes do parque pelo canto do olho, e todo resto das nossas vidas. Consigo enxergar que é você. É você! Não quem você se tornou, mas você. É você que eu preciso como minha garganta sempre seca precisa de água. Você precisa me molhar com a sua presença para que eu não me doa. Posso ver isso sem aquela fumaça idiota tampando seus olhos. De longe, você é meu pesadelo. De perto, minha salvação. Não sei por quanto tempo te olhei, ou você me olhou. Não sei por quantos cigarros você esteve comigo naquele dia. Fizemos sexo, casamos novamente, rimos e nos odiamos, tudo com um simples olhar que se estendeu indeterminadamente. No começo, tive medo de piscar e vê-lo desaparecer. Não da minha casa, mas da minha cabeça. Mas assim que pisquei, sendo impossível resistir por mais um segundo sequer, percebi que você continuava onde nunca deveria ter saído. A luz da janela já não estava em seus olhos quando você jogou a cabeça para trás e começou a rir. Baixei os olhos e soube que era o fim. Ou pensei que soubesse. Você começa a chorar e tem algo extremamente errado nisso. "Eu não choro, benzinho, eu bebo. É isso o que eu faço quando me sinto infeliz. Ou seja, o tempo todo". Agora você está chorando na minha frente, como uma criança perdida. "Eu não quero mais isso" você resmunga. "Eu também não, eu também não". Você me pega no colo e prega seus olhos nos meus novamente. Eu sei o que vai acontecer pela maneira como você sustenta meu olhar. "É assim que deve ser". "Eu sei". Você levanta da cama me carregando nos braços, desce as escadas e passa pela porta da cozinha. "Aqui não" eu digo, e ele entende que devemos voltar e apoiar nossos pés na parede manchada. Você me carrega no colo pela porta de entrada e me dá um beijo na testa ao me deixar no banco da frente do carro. Percebo que estou descalça, mas isso não importa agora.

"Você ainda dirige feito um louco". "Não é porque eu troquei a camisa do Ramones pelo terno que me tornei menos inconsequente". "Ainda bem". A casa está pior do que da última vez que a vimos. O mato cresce por todos os lados, estão na altura dos meus joelhos, as janelas estão enferrujadas e partes do telhado estão penduradas pela casa. Na parede não dá para saber o que é tinta e o que é sujeira, o que é mofo e o que é trepadeira. Está escuro feito breu, não há iluminação alguma por perto, a não ser pela vela que eu trouxe de casa, que acendemos com o isqueiro antes de sair do carro. Ele me põe embaixo do seu braço como costumava fazer em nossas andanças. "Esses otários precisam saber que a garota mais linda é minha". Eu costumava lançar uma torrente de xingamentos diante dessas palavras. "Mas que inferno você quer dizer com 'sua'? Eu não sou sua nem de ninguém, entendeu? Eu sou só minha". Mas eu era sua e você sabia. Hoje eu não digo nada. Me deixo ser protegida por você. Atravessamos o matagal que costumava ser o quintal, e entramos pela porta da frente. A porta está um pouco enferrujada e ele encontra alguma resistência em abri-la. Mas essa é a nossa casa e, naturalmente, conseguimos entrar. A primeira coisa que vejo é a mancha de sangue no quadrado de cimento sem piso. Minha cabeça estourando feito um pote de ketchup. Ele pega um jornal amarelado e cobre aquela parte. Só então eu percebo a tensão no meu corpo ao olhar fixamente para aquele ponto. O ponto de partida na corrida em direção ao inferno. Ele pega minha mão e juntos sentamos de frente para a parede mofada. Olhamos fixamente para aquele ponto por horas, vendo o mofo dançar na luz bruxuleante da vela. Nos abraçamos e nos aquecemos, nos esquecemos, também. Mas, acima de tudo, nos perdoamos. Rezamos olhando para o mofo e esperamos que Deus também possa nos perdoar. Fazemos desse tempo o tempo da contemplação, e há muito que meditar. Em algum ponto naquela madrugada fria, abro a boca pela primeira vez em horas "Minha pele já não te queima?" "Queima. De amor". Engulo o seco e me concentro na mancha. Daqui a pouco chega a hora.

O céu começa a clarear e daqui a pouco o Sol estará mostrando a cara. Ainda estamos sentados em frente a parede, nossos braços sendo um só abraço. Minha garganta está seca e eu tenho dúvidas se conseguirei falar novamente algum dia, mas assim que ele diz "pronta?" minhas cordas vocais criam vontade própria e respondem "sim". Ele se levanta e me estende a mão, assim como costumava fazer depois de termos dormido no chão, após uma bebedeira homérica. Pego sua mão e me levando sem esforço. Está quase no fim agora, e eu não estou cansada. Ele vai até o carro e volta com um bolo de corda emaranhada. Desvio os olhos enquanto ele trabalha e me dirijo até a janela da sala. A janela também está enferrujada e encontro certa dificuldade em abri-la, mas, novamente, a casa não resiste aos nossos esforços em dominá-la. Apoio minhas mãos no parapeito e fico olhando para a cidade minúscula ao horizonte, o Sol nascendo atrás dos prédios que não passam de torres de madeira a essa distância. A beleza do mundo é simplesmente insuportável. É cruel que ela se manifeste aos nossos olhos quando já estamos a ponto de nunca mais enxergar. O pensamento aperto meu peito e não consigo continuar suportando a vida num olhar. Fecho os olhos, então, e respiro fundo. Imagino o ar puro entrando no meu pulmão, invadindo minhas artérias e, enfim, tomando conta de cada milímetro do meu corpo. Esse é o meu adeus. E o meu agradecimento por tudo que vi e vivi.

As cordas estão penduradas lado a lado nas vigas de madeira além do forro, em frente à parede mofada. Ele arrastou dois caixotes de morango para debaixo das nossas cordas. "As damas primeiro", era ele diz. Era o que ele sempre dizia, fosse para passar por uma porta, para uma dose de tequila, ou para enfrentar a morte. Ele pega minha mão e me ajuda a subir. Eu encaixo o laço no pescoço. Penso o quanto isso é demente. O ser humano, assim como qualquer outro animal, faz o que faz para manter-se vivo e eu coloquei a morte em volta do pescoço, como um colar macabro. Uma voz no fundo da minha cabeça sussurro debilmente "você comprou esse colar na primeira vez que pôs os olhos naquela camiseta idiota do Ramones". Eu sei que a voz está certa. E não há nada que eu possa fazer. Ele sobe no caixote embaixo da segunda corda e veste seu próprio colar da morte. Olha por um instante para a parede manchada, talvez dizendo seu o adeus e o seu agradecimento. Depois se vira para mim e estende os braços em minha direção. Aceito sua pele, seus ossos e suas veias, aceito sua vida na hora da minha morte. Ele me abraça e encaixa nossos corações, assim como fez na primeira vez que saímos. "Vem cá, boneca, sobe nessa cadeira. Isso, agora encosta aqui. Tá sentindo? Seu coração tá grudado com o meu. Vai ser assim para sempre". Para sempre. Sinto seu coração acelerar e sei que essa é a hora, assim como soube que ele estava certo sobre o para sempre. Respiro uma última vez e o meus pés já não estão no caixote. Tampouco nessa vida.



......


Um sincero pedido de desculpas por não escrever aqui com mais frequência e outro pelos possíveis erros de digitação.









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