segunda-feira, 9 de julho de 2012

O cara na minha janela


Um dia eu acordei e o sol olhava pela minha janela, querendo dizer olá. Era enorme, era brilhante, fazia a gente se sentir um belo exemplar de futuro promissor. O sol me esquentava e não era preciso usar roupas, nem ao menos era preciso passar maquiagem na cara - o brilho do sol fazia qualquer um irradiar beleza feito a Gisele Bündchen em comerciais de jóia. Nesse dia, fiz um chá de camomila e deixei que os raios ultravioletas fervessem a água da minha santa infusão de saco de papel, altamente biodegradável, eu aposto - hoje em dia tudo é feito para se decompor com presteza. Inclusive as pessoas e os seus relacionamentos miojo. Mas nessa manhã em que o sol estava com a cara enfiada na janela do meu quarto, a tal da felicidade - ou qualquer que seja o nome que você dá pra essa coisinha engraçada que a gente sente e dá vontade de sorrir - seria eterna. Seria duradoura o suficiente para se tornar eterna. Como dizia o sábio poetinha "que seja eterno enquanto dure", ô carinha sabe-tudo, tão eterno quanto meu sol. Então não me preocupei muito em ficar observando as bolhas nascerem na água do meu chá, tampouco perdi tempo na frente do guarda-roupa, pensando, mãe, que bosta de roupa eu visto? Nessa eternidade toda eu bem poderia colocar o sutiã num século e a saia no outro. O sol era a coisinha mais esplêndida e grandiosa de toda galáxia, era coisa demais para esses dois olhinhos verdes e não havia espaço para preocupação com futilidades humanas. Sendo assim, deitei na cama nua – de corpo, de rosto e de alma - e deixei que o sol me beijasse. Começou me acariciando com a língua, mordiscando quando me percebia quase dormindo, se fazia mais e mais quente quando me via cair no abismo que eu sou. Ah, era como um eterno domingo, férias de verão no colegial, ah que delícia era aquele sol na minha prisãp! Mas a gente sabe, e sabe muito bem, já que é o tipo de coisa que se aprende na catequese, histórinha pra dormir, desenho animado, que o mal sempre vem por maior que seja o seu sol. A amanhã eterna acabou, afinal de contas, explodiu antes de evaporar e se tornar um punhado de moléculas e lembranças - o calor do sol era demais, demais, demais, para essa minha estrutura emocional. Tão fraquinha, coitada, tão doentinha, tão mamãe, cuida de mim? que acabou torrando com as bitocas desse solzão para poucos. Ah, que tristeza, que tristeza, que tristeza! E a tristeza não tinha fim! A lua veio me visitar, a chuva veio me dizer oi, até mesmo o dia modorrento apareceu para ver como eu estava, mas de nada adiantava! Que me importa a luz, o refresco ou o céu azul, se não posso sentir calor? Eu quero calor! Desde então vivo com o rosto enfiado - hora no livro, hora no travesseiro - e assim será até a próxima vida.
E a próxima vida poderia ser às oito da noite, quem seria capaz de prever?
Isso é ser o que eu sou.










Um comentário: