quarta-feira, 4 de julho de 2012

Eu não quero mais: em um parágrafo.


Eu não quero mais.

Eu não quero mais nada disso. Eu não quero estar aqui. Por favor, alguém arranque a porcaria da minha cabeça e a queime, a queime até que não sobre pouco mais do que ossos retorcidos. Por favor. Eu não quero mais estar aqui. Eu não tenho maturidade para estar aqui. Eu quero fugir. Me deixe fugir, me diga que tudo bem eu me esconder por um tempo, que tudo bem eu passar a tarde todo no corredor isolado ao lado da cozinha, tons de cinza e cheiro de chuva, como eu costumava fazer quando era criança, fingindo que não era esse o mundo em que eu vivia. Me deixa, por favor, qualquer coisa. Pai, eu nunca me senti fazendo parte. Eu não me sentia fazendo parte no jardim de infância. Eu me sentia um mundo a parte com aquele óculos da Turma da Mônica. Mais tarde, todas aquelas meninas com sandálias da Barbie e brincos de argola. E eu ainda não fazia parte. Fingia que era aprendiz de feiticeira e que podia fazer chover. Eu não sirvo, vê? Eu nunca servi. Eu não servia quando minha paixão platônica era Sid Vicious e minha vontade era de sangrar até morrer. Eu não servia quando a escola toda era um circo e eu a plateia querendo ver carne viva no picadeiro. Eu não servi nem ao menos na Inglaterra, pai, quando a graça era dançar a noite toda e eu queria só andar pelas ruas sozinha, olhando os prédios antigos e as pessoas tão modernas. Tão distantes disso tudo, sabe? Tão me aceitando de qualquer maneira. Eu não sirvo. Eu nunca servi. Eu nunca quis servir ao propósito do subconsciente coletivo, ser apenas mais uma escrava do que deve ser. Não quero servir agora. Não quero ser agora. Não quero fazer o que o resto faz. O resto do que não sou eu, do que não serei, o resto do mundo, o resto que são as pessoas e tudo aquilo em que acreditam de maneira impensada. É por isso, pai, que eu quero ir embora. Minha cabeça dói como o inferno. Minha cabeça vai explodir. Meu crânio tenso, meu maxilar travado: é assim todos os dias, o dia todo. Quando a melhor parte do dia é sempre o quarto escuro, tem algo errado. Sempre teve. Eu só quero fugir.


2 comentários:

  1. Muito bom!!! Só uma dúvida vc vai se matar? rs

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  2. não, querido anon. Apenas vou continuar com a terapia e o antidepressivo

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