domingo, 17 de junho de 2012

Olhos em Fogo


Sentou-se na mesa do bar e tomou um gole da sua Pepsi.

Não. Não é assim que a vida funciona, certo? Seja ela real ou fictícia. Ninguém nasce no momento em que a bunda encosta na madeira gelada do banco de um bar sujo e fedido, como qualquer outro bar sujo e fedido. Mas, se a partir do momento em que “Sentou-se” foi escrito por esses dedos em carne viva, ele existiu, não terá trazido consigo todo seu passado? Não era apenas uma frase, era uma oração. Uma oração e uma sentença. Pedia a mim em uma oração muda que lhe deixasse viver e era, assim, sentenciado a todos os sofrimentos que seres viventes carregam nas entranhas, sentimentos tão estranhos. Veja, o que eu quero dizer é: quando lhe dei o poder de julgar o verbo ser em primeira pessoa, humildemente deixei que tivesse um passado independente de mim. Um passado do qual nada sei. Sei apenas que

Sentou-se na mesa do bar e tomou um gole da sua Pepsi. Era domingo à noite por isso o bar estava vazio. Vazio de gente vazia. Olhava ao redor e o que via eram olhos inconformados. Indignados. Olhos que não podiam acreditar que era isso. Que a vida era isso. Dá pra me entender? Os olhos que o olhavam eram olhos desesperados. Buscavam em cada fundo de copo, rótulo de garrafa, parede bordel, mancha na privada, buscavam, às vezes, até mesmo dentro de outros olhos, descobrir o que é, afinal, que merda estavam fazendo ali. Vivos. Para que merda isso servia? Algumas pessoas vazias diziam que a gente vive para servir um tal de deus. Mas aquela gente cheia de insatisfação, mentira e rancor, não engolia mais essa. Não havia espaço em suas barrigas-mente para tanto falatório. E mesmo que houvesse, eu dúvido que algo pararia ali, naqueles cérebros danificados por álcool e droga.

Pensava nisso tudo com uma tranquilidade mórbida, quando percebeu um olho vivo o observando. Sacou pelo canto do seu próprio olho vivo demais. Não era desses caras-cheio que buscavam significado em cada grão de poeira. Ele estava pouco se fodendo pra essa merda de significado, essa que é a verdade. Era um observador. Divertia-se em assistir a tragédia cômica da vida alheia. Interessava-lhe cada sorriso involuntário e sobrancelhas arqueadas inconscientemente. Assistia a tudo como se não estivesse de fora do palco. Chegava a acreditar que era um mundo diferente de todos aqueles mundos imbecis. Esquecia-se, porém, que a plateia também faz parte do espetáculo. O espetáculo do qual, nesse momento, era ele o ator principal. Havia outros olhos a lhe observarem. Não gostou disso.

Primeiro tentou ignorar. Mas, veja bem, não é possível ignorar quando nos olham com tamanho interesse de nos ler. De nos abrir, nos fazer picadinho e saborear cada centímetro. Ah, a fraqueza do ser humano: não há homo sapiens que resista a ser comido por almas ávidas por sua vida. Esse é o mal do século, afinal. As pessoas decidiram em algum momento que seria melhor não confiar. Desde então, vivem a procura de qualquer coisa que lhe afague a carência e solidão. Tanta filosofia barata apenas porque quero que vocês entendam: ele não teria sido capaz de ignorar aqueles olhos que eram verdes, mas bem poderiam estar queimando em brasa.

(Continua)




OBS.: Desculpem-me pela péssima gramática. Escreva, depois edite. Mas eu sou uma procrastinadora nata, afinal de contas. Literalmente. Bom, isso é uma outra história.

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