domingo, 10 de junho de 2012

O que é sonhar?


Somos jovens tão cheios de sentir. De saco cheio. O saco de ossos transbordando de emoções. Não aguentamos mais tudo isso que é tanto e não é nada. Falo por mim, não pelos outros. Nunca fui os outros, mas pude sentir (sempre isso...) a dor que não é sentida pelo resto. O resto que são as pessoas e os seus não-sonhos. Não é sonhar almejar tudo aquilo que se pode ter com um pouco de esforço. Sonhar é imaginar, e imaginar é poder voar com os olhos e querer não pousar. Nunca mais. Até que o nunca se torna uma emergência e qualquer pesadelo é tão melhor do que continuar entre as nuvens de gafanhoto. Vê? Sonhar não é querer. Sonhar é além-querer. Eu sonhava. E tinha medo de cair num lago de sonhos ruins.

Em algum lugar entre o esconde-esconde e a puberdade, é preciso mudar os sonhos. É preciso não-sonhar. É preciso ser alguém na vida, como se já não fôssemos. Me perdi nesse algum lugar. Me perdi, principalmente, porque nunca gostei de brincar de esconde-esconde. Ansiedade em excesso reprimida dentro dessa cabeça-bomba. A puberdade não foi nada além da bomba explodindo para dentro e me pondo em fogo maldito. O fogo que tudo consome e nada me alimenta. Era preciso não-sonhar, mas eu só existo nos sonhos. Sonhos de verdade, eu digo.

Resolvi que voaria entre as nuvens de gafanhoto, e que me impeça quem puder voar tão alto quanto eu: quem não-sonha jamais me alcançaria. Resolvi. Foi numa noite de inverno em que fazia um puta dum calor.

 Chovera a semana passada toda e toda água do mundo entrou pelas telhas mal encaixadas logo acima do meu quarto, deixando meu teto preto de bolor. Pensei que fungos também são vidas, logo, havia vida no meu quarto. Vida não inteligente, via-se de imediato. Que ser vivente escolheria nascer no meu quarto? Mas quanta burrice. Pensei: se eu pudesse nascer em qualquer lugar úmido que me acolhesse, nasceria no meio do oceano. Nasceria em Oxford. Mas que inferno, eu nasceria no meio da selva. Não nasceria num lugar com tão pouca poesia. Sussurrei para o mofo sair dali, para ganhar o mundo enquanto pode. Sussurrei, com medo de acharem que o Lexapro já não faz efeito. Estava pensando nisso tudo quando tive medo. Tive tanto medo do mofo ser eu. Do mofo estar em mim, do mofo ter saído pela minha boca durante a noite. É tanta umidade engalfinhada no meu sistema nervoso, tantas lágrimas não choradas por dores não sentidas. Por vidas não vividas. Disse um pouco mais alto para o mofo sair dali. Vá se alastrar onde você possa ver o mundo de verdade! Aqui não há mundo, aqui só há sobrevivência e alguns porcos. Vá!

 Vou. Pensei. Eu vou. Eu devo ir. Eu devo me enfiar na nuvem de gafanhoto até sentir dentro da minha boca, ouvido, nariz, dentro do meu coração e da minha caixa craniana, mil daqueles insetos que sempre tive nojo. Porque é preciso voar. Pelo amor de Deus, é preciso voar! É preciso sonhar! É preciso que o meu, o seu, o sonho da humanidade, seja colorido e cheire a algodão doce. É preciso que sonhar não seja almejar. Que sonhar não seja a casa própria e uma TV legal. Pelo amor de Deus, não há nada de errado com TVs legais. Errado é uma caixa de ilusão ser o sonho coletivo de toda uma raça. Pedi ao mofo que não me deixasse. Que crescesse em mim para sempre me lembrar que sonhar é preciso, que viver é preciso. E que cair num lago de pesadelos é inevitável, mas é sempre melhor do que ser resto na mesa de jantar.

Um comentário:

  1. Super post! J'aime beaucoup!
    Angela Donava
    http://www.lookbooks.fr

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