segunda-feira, 25 de junho de 2012

Iolanda


Eram sete da manhã quando minha mãe começou a bater na porta do meu quarto, aos berros, exigindo que eu acordasse. Lembro-me de ouvir algo como você precisa sair desse quarto, você precisa ver a luz do dia, vá viver, Iolanda, vá viver! Lembro também de ter pensando que bosta é essa, o que essa louca quer agora? Deve estar tendo outra crise idiota de depressão, pânico, medo, sei lá que inferno se passa na cabeça dessa desgraçada. Arrastei-me até o lado esquerdo da cama, estiquei o braço em busca do tocador de MP3 na escrivaninha – querendo acreditar desesperadamente que I’m not here, this is not happening - mas só consegui derrubar um copo vazia no chão. Bosta. Alguém vai pisar nessa merda e acabar cortando o pé. E esse alguém serei eu; mais ninguém mora aqui. Tem minha mãe. Mas ela deixou de ser alguém assim que colocou o telefone no gancho, os olhos ainda refletindo a desgraça. Continuei minha procura pelo tocador quando me veio à cabeça aquela coisinha rosa no carro do Alexandre. É isso. Sem surpresas. Minha memória sempre foi um lixo, com todos aqueles remédios ela teve sua capacidade reduzida quase à extinção. Na verdade, não era bem assim. Minha memória-lixo tornou-se perfeita em relembrar cada merda de lembrança ruim que um ser humano, no caso eu, possa guardar na porra da mente. Os médicos diziam que era trauma pós-estresse. Eu queria apenas que eles morressem. E meu tocador. Sem música. Como se a vida já não fosse ruim o suficiente. Pensei em ligar o som e que se foda a minha mãe, mas não estava muito a fim de entrar numa discussão idiota que acabaria na Cecil qualquer coisa. Levantei da cama. A dor foi imediata.

Como eu previ, um caco de vidro entrou fundo no meu pé. E era isso, exatamente isso o que eu quis dizer sobre a merda da minha memória. Eu era incapaz de lembrar o que quer que eu tenha pensado dois minutos atrás. Todos os meus esforços mentais eram exauridos em coletar, armazenar e repassar momentos desgraçados da minha vida, e um copo quebrado não era mais do que frustração diária. Saí mancando em busca do interruptor, os olhos incapazes de enxergar qualquer coisa naquele buraco negro, as mãos bem esticadas em frente ao corpo, assim como eu costumava ficar quando brincava de gato mia com a Ceci. Parei por um minuto em algum lugar não sei bem onde, lembrando-me da vez que topei com o dedão no baú de brinquedos velhos da minha irmã, numa das vezes que brincávamos do tal jogo. Chorei e gritei até engasgar. Cecil foi correndo buscar o kit de primeiros socorros e fez um curativo com gaze e esparadrapo, depois amarrou uma fita de cetim rosa em volta do meu dedo. Para você não esquecer que a gente sempre pode tirar beleza da dor, ela disse. Onde você está agora, Cecil, para me ajudar a ver a beleza em toda essa merda? Desisti de achar o interruptor, larguei-me no chão, encolhida, abraçando os joelhos, minha coluna gritando em protesto. Eu não estava mais ali. Eu estava em qualquer lugar, mas não ali. Minha mente me pregava peças naquele tempo; eu não conseguia saber o que era real. Fiquei ali por 2 minutos ou 2 dias? Nunca saberei. Lembro-me apenas daquele refrão ecoando nos meus ouvidos “I’m not here, this is not happening”.





Um comentário:

  1. Lindo. Dá pra ouvir a sirene ao fundo enquanto Iolanda se vai

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