domingo, 10 de junho de 2012

Insincero adeus.


- Eu quero ir embora.
- Para onde?
- Não sei, qualquer lugar.
- Você já está em qualquer lugar.
- Qualquer lugar que não seja esse.
- Qual o problema em estar aqui?
- Estar aqui.
- Você sempre esteve aqui.
- Problema número dois.
- Não vejo nada de errado.
- Eu vejo todas as praças onde eu já chorei.
- Chorou por quê?
- Por ser eu.
- Então o problema não é aqui, é aí.
- Não há nada de errado com o meu coração. Ele só está cansado.
- Cansado do quê, menina? Você nem ao menos viveu!
- É isso. Meu coração está cansado de não viver. De carregar tantos planos falhos nas artérias.
- Então vai.
- Vou para onde?
- Qualquer lugar. Não é para lá que você queria ir?
- Quero.
- Não vou esquecer você. Me mande um postal de qualquer lugar.
- Vou me lembrar de você. Sempre. Por cada rua que eu andar.
- Diga a qualquer pessoa que encontrar o quanto sinto falta de você.
- Direi.
- Você acha que é lua crescente ou decrescente?
- Importa?
- Importa.
- Por quê?
- A lua decrescente representa a face anciã da Deusa, que se recolhe nas sombras para estar somente consigo mesmo.
...
- Queria que você estivesse comigo, não consigo.
- Estarei sempre com você.
- Sempre?
- Sempre.

Levantou da sarjeta, limpou as folhas grudadas em sua saia de pregas e foi embora. 

Nunca mais voltou. O cartão-postal esquecido no fundo da bolsa jamaicana.




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