quarta-feira, 6 de junho de 2012

Desabafo

Larguei a faculdade.

Larguei mesmo. Pronto. Foi numa noite em que eu estava de saco cheio. Eu estou sempre de saco cheio, mas isso não vem ao caso. Eu estava me sentindo incapaz. Inútil. Idiota. Gorda e feia. Vinte anos pesando 3 toneladas no lombo e eu não tinha dinheiro para comprar um livro. É isso. Me deixe sem roupa, leve meu celular, corte minha internet, confisque meu chocolate, mas não me torne uma pessoa incapaz de comprar uma porcaria dum pocket book. Fiz as contas de quanto eu gastaria com aquele curso de merda. Daria para eu comprar um carro. Um carro para sustentar minha preguiça. Larguei a faculdade. Fotografia: não é isso que eu quero, não é disso que eu gosto. Tiro uma ou outro foto com a minha câmera supercool comprada na Inglaterra, qual o meu problema de querer fazer Fotografia? Não sei fotografar. Não sei mesmo. Só to num negócio com o meu namorado de fazer ensaio sensual da mulherada. Só isso. Nada demais. Aprendo na vida. Larguei a faculdade.

Vou fazer Letras. É. Vou fazer Letras porque é isso que eu sei fazer. É só isso que eu sempre soube fazer. Encontrei um caderno de 2003, a capa feita de recortes da Turma da Mônica. Meu primeiro livro. Se chama "As Amigas". Nasci para isso. Só sei fazer isso. Só sei escrever e interpretar textos. Interpreto tão bem que sou capaz de colocar a culpa na minha vítima. Vou fazer Letras. Decidido.

Toda decisão vem com um boing de problemas. E meu problema é: eu odeio matemática. Eu odeio tanto matemática que quero me matar todas as noites, quando lembro que sou uma porcaria duma vestibulanda de novo. Meu sonho de criança era terminar a escola e nunca mais precisar ver aquele maldito sinal de mais e sua família desgraçada. Tenho vinte anos e estou estudando geometria para o vestibular. Qual o problema comigo? Qual a porra do problema comigo? Nem se eu vender minha alma para o diabo eu serei capaz de entender que merda o x tá fazendo ali perdido. Alguém manda esse filho da puta para casa, pelo amor de Deus, eu não quero ele aqui! Matemática, minha querida, eu tomo anti-depressivo, faço terapia e tenho crises depressivas quatro vezes ao dia, o que você acha de se virar com os seus problemas e me deixar em paz? Passo o número da Desatadora de Nós se você quiser. Ela está me ajudando a encontrar meu x, talvez tenha horário para te ajudar também.

Enquanto eu ajudo o tal do x a voltar para casa, eu continuo flertando com a literatura. E me achando uma merda. Uma bela duma merda. Quem foi que disse que eu escrevo bem? Alguém, algum dia, me contou essa mentira e eu acreditei. A única coisa que eu sei fazer da vida é escrever e faço isso tão mal que quem quer que seja que tenha inventado a escrita, deve me odiar. Só sei escrever sobre menininhas idiotas em depressão e sobre como está tudo bem ser infeliz. Não está tudo bem nada disso. Não sei escrever. Não sei fazer nada. O que inferno eu to fazendo aqui?

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