terça-feira, 8 de maio de 2012

Uma ou outra coisa sobre mim

Talvez se aquela única lágrima não tivesse caído dentro do meu pote de sorvete de flocos, salgando a mistura mole de açucar e pedaços de chocolate, talvez aí, eu não teria derrubado tantas outras lágrimas em coisas tão doces ou amargas ou qualquer outra coisa.

Talvez se eu não tivesse puxado meus cabelos e gritado, um pequeno ataque de raiva e fúria num adulto cansado dentro do corpo de uma criança sem defesas, talvez, aí, eu não teria contido tanta fúria infundada em mim. Tanto desespero por descabelar internamente e não emitir um grito. Uma lamúria se quer.

Talvez se aquele copo não tivesse quebrado, os estilhaços do vidro não tivessem encontrado o chão cinza, frio, talvez quente, não sei, mas sempre frio, se eu não tivesse visto, ou imaginado ver, o reflexo do sol naquele pedaço de areia e água, talvez, e só talvez, eu não tivesse me sentido tentada a arranhar meu pulso. Pela primeira vez. Pela primeira vez aos dez anos. Talvez eu não tivesse algumas cicatrizes no meu braço. Linhas fracas, claras, linhas superficiais de tanto sentimento confuso dentro de mim. Talvez se aquele punhado de areia não tivesse virado copo, eu teria sufocado tanta dor por nada, ao invés de libertá-la em sangue e noites não dormidas.

Talvez se eu não tivesse lido Capitães da Areia aos onze anos, talvez eu não tivesse tomado tanto gosto pela tragédia e miséria da vida. Talvez eu até achasse que romances impossíveis são sempre possíveis e que a gente tem mesmo é que enfrentar o mundo para ser feliz. Talvez eu não seria assim tão dramática e pessimista e fatalista se eu não tivesse visto com o coração a Dora morrer depois de uma noite de amor com o Pedro Bala. Talvez eu tivesse mesmo tido um amor platônico mais romântico e menos fodido. Talvez se Pedro Bala e sua cicatriz não tivessem existido nas minhas tardes naqueles dias de infância perdida, eu não teria esse tombo desequilibrado pelo que é irregular. Talvez eu não visse beleza além do que somos treinados a ver. Talvez eu tivesse mesmo mantido meu antolho.

Talvez se eu não sentisse demais. Talvez se eu não me doesse demais. Talvez eu poderia me preocupar agora mesmo com a próxima balada super irada do fim de semana. Eu poderia mesmo estar pensando "chega logo, sexta-feira, sua linda!!!!". Talvez se eu não fosse eu, procurando a cada rodoviária, guichê, ralo de banheiro, procurando até mesmo em cada pinta perto do olho, contorno da boca, palavras por acaso, o sentido, qualquer que seja, da vida. Ou sentir a vida. Ou sentir. E talvez, então, eu teria paz. Um pouquinho de paz, que seja. A paz, meu bem, a paz é não desperdiçar um minuto dessa sua vida que acaba amanhã pensando que talvez ela dure mais um dia. Talvez eu nem me importasse em ser outra pessoa, talvez eu não lamentaria por noites a fio ser quem eu sou. Ou ser, enfim.

Mas, talvez. E só talvez. Eu até goste um tiquinho de ser assim. Ser assim e fim. Ainda que eu me recuse a aceitar, ainda que eu grude nos ferros da roda gigante e grite ao maquinista: ME DEIXE ENTRAR. Ainda que até então não tenha me sobrado coragem para montar o palco para o meu próprio show. Ah, meu bem, talvez e só talvez, o espetáculo fique para depois das seis.  Luzes, vocês sabem, luzes não brilham no claro que guia a multidão. Quem sabe, então, quando for tudo escuridão e gente entendendo que não são elas que giram a roda-gigante-girante, quem sabe, quando as crianças estiverem em casa, brincando de serem felizes, meu show de horrores e amores terá vez. Talvez. 

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