terça-feira, 15 de maio de 2012

Terça-feira, um dia desses.



Entrei em casa saindo da chuva fina e gelada, a brisa úmida passando pela minha roupa, poros, sistema nervoso. Era terça-feira de manhã e fazia frio. Eu fui à terapia logo, onde a Desatadora de Nós tentava me ensinar a criar, achar, ou tanto faz, uma tal de voz interna que diria até onde eu posso ir. Devo ir. Sei lá. Como é que a gente faz pra transformar uma voz que te diz o quanto você está deslocada no mundo, numa voz que te diz que está na hora de desacelerar e ficar bem? Às vezes eu acho que eu vou ficar louca, e não há voz alguma que assegure minha sanidade.

A casa vazia. As paredes silenciosas. O chão gelado. A casa em paz. Respirei fundo o ar denso de tranquilidade. Preciso parar por segundo para entender que não estou parada. Entende? A vida ta acontecendo e eu estou acontecendo. Talvez... ah quem eu quero enganar, certo? Com certeza, eu quero dizer, não estou acontecendo no mesmo roteiro que o cara sentado ao meu lado no ônibus minutos atrás, ou na mesma freqüência que aquela garota-mulher da minha sala na faculdade. Eu nem ao menos estou acontecendo do mesmo modo que meus amigos. 

Alguma coisa aconteceu há alguns anos atrás, há tanto tempo que eu não me lembro; foi qualquer coisa assim que me fez sair da sintonia, e agora eu não consigo querer cantar no mesmo tom. O tempo todo eu ouço um coral à minha volta cantarolando a felicidade. Não, cantarolando, ou melhor: gemendo, a euforia barata e instantânea. O coral de mãos dadas brincando de ciranda, enquanto eu estou num canto qualquer, num espaço de tempo qualquer, gritando que as coisas não acontecem assim, pelo amor de Deus, parem de ser tão babacas! Às vezes eu acho que eu vou ficar rouca. Ou louca.

Por sorte eu sou piegas. Eu sou piegas pra caralho. E há sempre um galho dançando com o vento, uma flor nascendo no asfalto, há sempre uma criança sorrindo e rostos de beleza grega no circular, há sempre uma luz piscando e algumas sombras interpretando a vida real, e, principalmente, há sempre algo bom esperando para ser lido, algo assim, que me faz olhar para frente e ver além das paredes sujas, muros pichados, prédios descoloridos. Sorte a minha pode ver beleza nesse amontoado de miudezas. Há quem diga que é um dom olhar e enxergar, uma tal de sensibilidade. Eu chamo nadar de cachorrinho no meio do oceano.

Não tomei um banho quente, nem ao menos tirei a roupa gelada. Apenas me amontoei no sofá com a mesma coberta de vinte anos atrás. É bom estar em casa longe do coral de gente maníaca-obsessiva. E hoje, só por hoje, é muito bom não existir a tal voz-mãe na minha cabeça. Hoje, só por hoje, há paz no silêncio dessas paredes.

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