quinta-feira, 31 de maio de 2012

Pequena história sobre a depressão

Era uma árvore bonita.  Sempre fora. Ainda brotinho, percebia-se por suas folhinhas verdes de cor vívida que seria uma belezura de árvore. Dizia-se que no dia em que despontou na terra úmida, todos os pássaros da redondeza vieram prestigiá-la, tamanho seu encanto. Já era forte naquela época tenra de sua vida de vegetal de tronco lenhoso. Nunca precisou de uma estaca, nem ao mesmo um palito de sorvete, para mantê-la firme.

Tornou-se uma árvore adulta esbelta, seu tronco era de fazer inveja em qualquer outra do reino plantae. Se os beija-flores ainda vinham aquele jardim, era para lhe beijar as flores rosadas. Era um belo exemplar da espécie, todos haviam de concordar. Além de toda essa formosura, era uma planta generosa: fazia sombra para seus amigos animais o ano inteiro e, o mais incrível, dava fruto em todas as estações. Olha que beleza! Era mesmo um amor, essa Amoreira. E quando morresse, veja só que sorte a dela, tornaria-se uma bela namoradeira Luís XV na sala de estar. Amoreira andava bem, ainda que não andasse. Andava era bem de vida. Até que.

Era um dia quente de verão. Bom, quanto eufemismo! Era um dia infernal de verão. Era como se o diabo tivesse ligado seu ar-condicionado particular e estivesse disposto a comer terráqueos no jantar. Os passarinhos dormiam em seus galhos sedosos, o jardim todo era só silêncio. E foi aí que percebeu. Ou melhor, foi aí que sentiu aquilo existindo.

Primeiro foi só uma coceirinha, um desses comichõezinhos bobos que ela sentia quando algum gato decidia afiar as unhas em seu tronco. Estava tudo bem. Até que se deu conta que não havia gato algum. Nada. Nem sinal de felinos domesticados nas redondezas. A coceira continuava, e agora a incomodava. Quis ser um humano e arrancar a raíz da terra, coçar até sangrar. Mas era uma árvore. Apenas uma árvore idiota num jardim idiota. Amoreira. Que idiota. Não! Não era idiota! Por que estava pensando assim? Era aquela coceira. Só podia ser!

Passou o dia agonizando com aquele comichão na raiz, logo onde ela despontava para o ar livre. Não conseguiu dormir à noite, não havia como! Sentia-se fraca, sentia-se impotente. Sentia-se tanta coisa que não sentiu a coisa crescendo. O comichão agora espalhava-se por seu tronco, que um dia foi o mais belo da plantae. Queria coçar, queria correr, queria sair dali, mas, que desespero, era só uma árvore! Naquele dia ninguém lhe visitou, nem um pássaro cantou. Ouviu dizer que se chamava trepadeira aquilo que tinha.

Trepadeira. Trepadeira. Sentia um arrepio nas folhas só de pensar nesse nome. Não era possível. Havia ouvido falar de árvores que tiveram essa tal de trepadeira, mas eram todas árvores infelizes, árvores mal-amadas, árvores que não eram nem de longe tão lindas quanto ela. Árvores fracas. Ela não era fraca, ela não era nada disso! O que inferno estava acontecendo? Mas que merda lhe fizeram? Mas que merda ela fez a si mesma? Queria chorar, mas nem isso podia. Era só uma bosta de uma árvore. E uma árvore doente.

Curvou-se um pouco, então.

Nesse dia, não havia sombra para os gatos fadigados da caça. Toda a sombra que produzia, volta-se para dentro. Algo que antes aliviava seus amigos, agora lhe enchia de sofrimento. Era uma sombra ruim que a habitava, era uma sombra reprimida e triste. Todos no jardim sentiam-se tristes por ela, mas ninguém queria chegar perto. Não agora que a trepadeira estava chegando ao seu rosto, abraçando-a por completos. Eles tinham medo de pegar a doença, e quem pode culpá-los? Ninguém gosta de ficar perto de árvores estragadas.

Ninguém gosta de ficar perto de árvores estragadas. Era isso, então. Ninguém gostava dela. Não mais, nunca mais.

Curvou-se mais um pouco naquela noite.

Na semana seguinte, já não havia flor em sua copa. Não havia brilho em suas folhas. Já não havia comichão. Não havia nada. Não sentia nada. Agradecia por ser apenas uma porcaria de uma árvore: não agüentaria andar. Mal podia fazer sua fotossíntese, imagine locomover-se! Agora precisava arrumar alimento para dois. Ela e sua doença. E nunca era o suficiente. A trepadeira roubava tudo que produzia. A trepadeira lhe tampava o sol, mal podia ver como estava o tempo, sabia que chovia apenas pelas gotas em suas folhas. A trepadeira espantava todos que, corajosamente, tentavam se aproximar. A trepadeira lhe dominava completamente. A trepadeira era ela, a Amoreira, enfim.

Curvou-se quase 45 graus dessa vez.

Diziam que estava morta. Quem dizia? Não sabe. Apenas diziam. Ela estava morta. Se não fosse pela trepadeira, já teria caído. A trepadeira, o que lhe destruíra, era agora o único motivo por ainda estar em pé – mesmo que envergada. Amoreira, que um dia fora tão radiante, passara a ser conhecida como a árvore triste. A árvore sem frutos. Não daria uma boa caixa de tomate, imagine uma namoradeira Luís XV! Amoreira agora era a trepadeira. Apenas isso.

Um dia, vieram uns homens de cinza, uns humanos estranhos, tinham uma cara tão amargurada, que Amoreira quase sentia pena deles. Bom, vieram esses homens e lhe cortaram alguns galhos. Ação preventiva, foi o que eles disseram. Queria evitar que sua doença se espalhasse pelas árvores vizinhas. Ainda naquela semana, apareceram outros caras de cinza, esses não tão amarguradas, mas agressivos. Poderiam murchar uma flor delicada com tanto vigor destrutivo. Amoreira levou um susto, um susto calmo, quando começaram a arrancar a trepadeira de seu corpo. Eram energéticos, determinados. No fim do dia, já não havia trepadeira em seu tronco. Mas Amoreira já não era a mesma. Amoreira estava ferida, sem vida, pálida. Corcunda.

Curvou-se alguns centímetros quando os homens se foram.

Curvou-se pelo peso que fazia a ausência da trepadeira. Quem a seguraria agora? Amoreira não sabia o que fazer com sua vida. Passara tanto tempo mofando por de baixo da trepadeira que não podia suportar o sol – tornou-se uma amante mal-amada dos dias de chuva, não podia ouvir os pássaros sem desejar que todos explodissem, fossem para o inferno, virassem comida de ratos do demônio. Amoreira estava livre de sua doença, mas agora ela estaria doente até o fim de seus dias.

Amoreira, a árvore triste.









Um comentário:

  1. As grandes questões são: como ser novamente a Amoreira de antes?Como se livrar dos fardos?Como viver sem sua trepadeira?Como ser feliz,sendo que você não sabe mais fazer isso?Como ser você mesma,se você não sabe mais quem é?

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