quinta-feira, 3 de maio de 2012

O último chá


Foto por Sofia Pellisson
Vê se me atende, me atende, por favor. Me atende! Me atende, porra. A porra atendeu. O que aconteceu, querida? Eu acordei odiando ter que acordar, como eu queria jogar aquela porcaria de celular na parede, jogar a porcaria que eu sou na parede. A porcaria do meu dia na parede. A porcaria que é isso tudo e todo resto na porcaria da parede. Você vai me dizer que não é assim. Não é assim, minha querida, você não pode simplesmente odiar o mundo, odiar você, odiar seu celular da moda. Deixa disso, ta? Deixa pra lá essa coisa de odiar e de porcaria e de parede. Mas eu não ouço o que você diz. Desde quando eu ouço qualquer coisa senão a minha? É tanto egocentrismo. Egoísmo. Tanta pedra em volta desse coração, alma e cabeça de ferro. O ferro longe do fogo. Ah, mas para que isso? Para quê? Você se lembra do que aconteceu com a tia Josi? Você lembra como ela foi enlouquecendo aos pouquinhos, bem devagarinho, só porque um dia ela pensou que triste seria se o sol não saísse para suas plantinhas? Acabou lá, internada naquela lugar horrível, sujo, vendo uma paz que era só dela, sedada até os ossos. Louquinha da Silva. Você quer isso? Quer enlouquecer aos pouquinhos, meu bem? Acho que não, né? Você é bonita demais para isso. Bonita demais para enlouquecer? Deixa disso. Eu to tão cansada e tão cansada de estar cansada, que o fim de semana é pouco. Eu quero a loucura para tirar umas férias. Ou o fim do mundo. Você sabe quando é que esse mundo vai acabar? Esse mundo só acaba quando não houver uma só alma que o queira. E ainda há esperança rodando por aí, em meio ao lixo jogado na rua e ao escapamento quebrado de carros velhos. Há esperança, querida, sempre há. Sempre há. Queria saber onde foi que toda essa esperança foi se enfiar, isso que eu queria. Oh, meu bem, estou com tanto sono. Talvez eu volte a dormir. Não se esqueça de desligar a chaleira, menina, você não quer que sua casa vire um inferno, não é?

Mas ela queria. Ah ela queria. Ela só queria pôr um fim. Que fosse um fim medíocre, um fim de filme alternativo-pseudo-intelectual. Que fosse. Que seja. Pegou seu lenço pintado a mão com rosas salmão, amarrou no cabo da chaleira e desejou que a camomila a acalmasse para sempre. E para sempre foi. Deitou, dormiu. Não acordou. O fogo a fez, enfim, descansar.

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