segunda-feira, 7 de maio de 2012

Não-mão, não-morta, não-vida.


Parei em frente àquela vitrine de inverno e deixei de ver o mundo. Minto. Vinha pensando em você, enquanto andava pelas calçadas sujas de poluição e gente, quando parei naquela vitrine de inverno. Não via o mundo desde que você me deixou em casa e entrou na rodoviária escura. A rodoviária com cheiro de prostituição. Então, um ou dois ou três, não sei, dias depois, pensava em você quando parei em frente àquela vitrine e passei, enfim, a ver o mundo através do reflexo no vidro (a massa inerte de areia e água entre eu e qualquer coisa além disso). Era isso tudo o que eu podia enxergar de qualquer coisa que estivesse além de mim, além de nós: o reflexo na janela. E era muito. Era o suficiente. Porque ali, em frente à vitrine de inverno, em pé na calçada suja de poluição e gente, eu carregava o mundo dentro do peito. Do lado esquerdo. Do lado direito. Na verdade, carregava o mundo dentro de mim e tinha os olhos verdes de amor. Ou de dor. Qual é, então, a diferença entre amar e ser triste?

Estava há alguns segundos eternos olhando para aquela mão. Aquela mão não-morta porque nunca foi viva, a não-pele brilhante porque nunca foi pele e glóbulos vermelhos, e os dedos não cheios de rugas. E expressões. Olhava. Olhava até que comecei a reparar. Reparava, então, em como aquela mão não-morta poderia estar tão viva quanto eu. Quanto eu e todo esse mundo dentro das minhas moléculas. Pensei que, afinal, era mais ou menos assim que eu me sentia a maior parte do tempo: não-morta. Não-triste. Não-nada. Tão não-being. Vê? Eu era e sou apenas um monte de plástico sem expressão quase o tempo todo. Quase. Quase apenas porquê eu sinto tanto quando não estou não-sentindo.

“Oito ou oitenta. É assim que você é, Camila: oito ou oitenta” é o que a minha mãe diz nas minhas tão diárias crises emocionais ou o nome que você queira dar. Então eu estava em frente àquela vitrine de inverno reparando naquela mão não-morta e eu queria te ligar e dizer que não. Não sou oito ou oitenta, porque oito é o símbolo do infinito em pé. Pois eu não estou em pé e não sou infinita. Entende? Eu sou sim ou não. Muito ou nada. Eu sou achocolatado com açúcar ou café puro. Eu sou tão extremamente viva quando eu sinto tanto quanto eu sou um grão de poeira pairando no sol da tarde quando eu não sinto. Quando eu não sou. Quando eu apenas estou. E estou por tão pouco tempo que não chego a ser. A não ser, é claro, isso que já sou. Sou um monte de tristeza se achando passageira, ali naquela rodoviária com cheiro de sexo barato, poluição e gente. Ou aquela era a calçada? A vitrine? A mão? Era eu a mão, a triste, não-morta, sem ruga. Expressão, a mão? Não.

Era eu apenas ali. Eu estou sempre. Só aqui. Ou ali, Ou tanto faz. A roupa na manequim de mãos não-mortas era um desses vestidos de festas para quem gosta de festejar como se não houvesse amanhã. O amanhã é tudo que eu tenho. Olhei para os dois lados da rua. O sol de inverno querendo aquecer, o vento do bueiro querendo esfriar. Subi a rua e esqueci do que quer que seja que houvesse em mim. Ou no reflexo no vidro. Na mão não-morta. Era quase inverno e eu só queria um chocolate quente ou. Qualquer coisa quente.


3 comentários:

  1. não brinca que essa é sua mão ??? com esses cantos em carne viva ???
    Camila, Camila ... eu não conheço você, mas sei que frequenta um psiquiatra e toma remédios. não quero me meter na sua vida, mas como quase finalista do curso de psicologia, me preocupo em ver pessoas em certas situações. desculpa a pergunta, mas você faz algum acompanhamento com psicólogo, ou apenas toma remédios ?
    se cuida menina ! não se maltrate.

    beijo!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu faço psicanálise a alguns meses, mas não sei se tá dando certo...

      Excluir
    2. o processo terapêutico´pode ser demorado. as vezes depende do paciente, de sua disponibilidade a aceitar e colaborar com o terapeuta. depende de como o terapeuta conduz o processo. pode não estar 'dando certo' agora, mas tem paciência e se permita essa experiência.
      um tratamento somente medicamentoso é complicado.
      tuas angústias constroem escritas e leituras lindas, você pode ser triste mesmo, mas com ajuda você aprende a lidar com a tristeza e melancolia, sem sofrer.

      desculpa me meter assim :)

      Excluir