quinta-feira, 10 de maio de 2012

Cadeado, sorvete e tênis super-resistentes




Ela tinha suas frustrações diárias. E quem não tinha, meu bem, naquele tempo em que ser feliz ontem era mais importante do que estar seguro amanhã? Pois bem. Ela não era feliz. Vê? Ela não achava lugar para dançar na Convenção Anual dos Babacas. Tinha, então, suas frustrações diárias. Tão diárias e tão secretas quanto um querido diário desses que a gente escreve quando pré-aborrescente. Mas há sempre alguém para lhe quebrar o cadeado, já havia aprendido, embora não acreditasse.

Não acreditou. Até que lhe quebraram o ícone cadeadano. Era plástico, ora bolas, é claro que seu destino era ser quebrado. Foi quebrado, então. E vejam só, foi quebrado por ninguém mais que (oh e não, não há ninguém mais que) ela.

Foi num dia bobo assim como esse. Não fazia frio, não fazia calor; não havia nada para ser sentido de fato. Decidiu num impulso doentio que era preciso vento na cara. Vento na porcaria da sua cara sem graça. Correu. Correu porque não podia voar e é melhor cansar do que parar. Do que continuar parada. Não queria continuar, fosse o que fosse. Era sempre um pesadelo essa coisa de continuar sem vontade alguma, sem fé no que se pode viver. Correu. Correu para sentir o vento na porcaria da sua cara, correu porque não podia voar e correu, enfim, porque não queria mais continuar.

O cadeado quebrou no prmeiro passo. No segundo, já não tinha certeza se voar era impossível. No terceiro, ah, no terceiro já não corria, tampouco voava, no terceiro, meu bem, no terceiro não existia. Não existia em corpo, veias e vaso menores, ossos e músculos tensionados, no terceiro passo era só coração e o que quer que seja que a gente chama de alma. No quarto passo podia até mesmo sentir um pouquinho de amor. Amor por ela. Porque amar o outro é fácil, vê? Perdoar a estrutura corrompida do outro é fácil. Mas se amou um pouquinho e se permitiu achar encantadora sua fachada com manchas de umidade.

Correu.

Viu árvores, prédios, casas, vidas, viu gente, alegria, viu jaqueta de couro, sandália de prata, brinco de ouro, viu sertão no peito, viu neve em bocas, viu tanta coisa só pelo canto do olho. Não atrevia a desviar-se do seu caminho. Seu caminho era sempre em frente. Correu por três anos e sete meses. Correu por cidades, bairros, vilas, correu pelo inverno, verão, outono e primavera. Correu em cima de flores, chutou latas de refrigerante. Correu porque não podia parar. Não queria parar. Até que cansou.

Entrou na sorveteria e pediu um napolitano com cobertura de chocolate, pedaços de banana e brigadeiro. Suas frustrações ainda existiam, mas a vida era doce e não havia Baile de Idiotas a ir. Afinal, um sorvete é melhor do que mil músicas e luzes apagadas, oh sim, um sorvete é melhor do que pseudo-putas e pseudo-homens. Sentou à mesa da sorveteria, de frente ao mar de prédios. Pensou, então, que ótimo era não ser mais um cadeado no portão de si mesma.

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