quinta-feira, 17 de maio de 2012

Dra. Esquina e sua Terapia Imediatista





Depois de um tempo se tornou uma necessidade. Assim como é necessário água na mão esquerda quando se molha a direita, ou comer macarrão com molho branco quando se sente cheiro de creme de leite pela janela do vizinho. Havia a necessidade. E havia a busca. Sim. Eu buscava, dentro de todo o meu limite, dentro do meu caminho, dentro apenas da minha inestimável zona de conforto. Buscava. Os olhos atentos a cada esquina, a cada nova quadra, nova rua, nova cidade, os olhos lá fora, já cansados de olhar para dentro. Era uma necessidade, entendam.

Necessidade de ver uma esquina quadrada.

É: um muro encontrando outro muro a 90 graus. Um muro fugindo da guia e de sua curva suave, bem feita, a curva que nos movimenta. Um muro ali. Um muro tão parado quanto se pode ser, tão fora de todos esses padrões idiotas que inventaram, um muro quebrando o ritmo imposto pela sucessão de tantos outros muros e esquinas. Um ângulo de noventa graus na esquina. Era só isso. Meus olhos estavam secos de necessidade por aquela aresta. Tente olhar para uma linha curva de uma vez. É possível, é agradável, é como se espera e como deve ser. Tente olhar para uma linha reta quebrando para a esquerda. Por um átimo de segundo você estará preso ao ângulo alfa. Por um átimo de segundo você estará suspenso no tempo. Eu queria aquele átimo para mim. Eu queria aquele átimo me esperando numa esquina.

A esquina existe, afinal.

Não apenas uma, é claro. Mas tive sorte: afinal, havia uma tal da esquina e meu átimo, logo ali, no quarteirão de baixo de casa. O ângulo de noventa graus pintado de azul anil, gritando ao bairro, à cidade, a todas as outras esquinas: olhem bem, olhem muito bem para mim, pois eu tenho o átimo que te corrompe! Eu tenho a aresta que diz que não, não seguirei guia alguma, não estou na sarjeta, meu bem, não vou te seguir! Por tanto tempo não a vi ou ouvi. Mas agora a procuro.

Coloco o pé para fora do meu portão e a procuro com os olhos. A procuro sempre que preciso me lembrar que tudo bem ser uma aresta. Que tudo bem não ser nada. Que tudo bem não seguir. Que tudo bem ser quem eu sou. Está mesmo tudo bem em quebrar o ritmo dessa maldita roda-gigante. O que importa, ou talvez não, tanto faz, não é?, é ser o átimo. O átimo que te faz pensar: mas que menina idiota, falando sobre esquinas, ângulos e o caralho a quatro, como se esquinas, ângulos e o caralho a quatro fossem poéticos, sentimentais, emocionantes. Pois são. Vê? O que quer que te dê um átimo tem emoção. A emoção de quebrar o ritmo das curvas que giram o mundo.


Talvez minha mãe esteja certa. Talvez eu sinta mesmo demais. Talvez eu sinta tanto que sinto até o muro e seu ângulo de noventa graus me confortando. Mas tudo bem, não é? Tudo bem ser uma esquina quadrada.

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