segunda-feira, 28 de maio de 2012

Deixe o amor para mais tarde


Foi num domingo sem sol e sem emoção que Lili decidiu que já era tempo de arrumar um namorado. Eram duas horas da tarde quando ela se levantou da cama desarrumada e foi tomar um banho de vapor e framboesa. Sua avó querida havia lhe trazido um shampoo da Romênia, e Lili sabia que haveria de chegar o dia em que seus cabelos conquistariam o mundo. Ora pois, esse era o dia em que eles conquistariam seu mundo. Outro mundo que é uma pessoa.

Saiu do banheiro enrolada na toalha rosa felpuda e sentou-se na cadeira de balanço – também presente de sua avó. Pôs-se a balançar imaginando todas as noites, com o cheiro doce do shampoo de framboesa, que passaria ao lado do Mundo. Dentro do mundo. O mundo dentro dela. Em como seria belo poder existir de fato. Sua avó sempre lhe disse “Meu bem, a gente só entende da existência quando existe junto, goza junto e sua junto”. Lili àquela época tenra não soube o que era gozar. Achou que a vó estava de gozação com sua cara, isso sim. Oras, como pode a gente só existi junto se ela estava ali existindo bem existida sozinha?

Agora Lili entendia o que sua avó queria dizer. Quando a gente vive só é como se a vida fosse um gigante domingo sem sol e sem emoção. Não há cheiro de framboesa e tampouco há sombra de árvore na cortina de renda. E ela já estava de saco cheio desse domingo sem vida. Pensava nisso tudo enquanto balançava para lá e para cá, como só pensamentos e cadeira de vó podem balançar. Ainda havia gotas de água fresca em sua pele morena de caminhadas matinais. O cheiro era de casa. Ela cheirava a casa. Ela era sua casa.

Pensou no que vestiria para conquistar o Mundo: um vestido francês de renda, creme-de-marisco, com a manga bufante - mais um dos presentes das viagens de sua vó. “Que vestido romântico!” sua irmãzinha dissera, enchendo os olhos de entusiasmo. Ceci adorava histórias de amor. A verdade é que ela, Ceci, sempre fora a romântica. Ela e não Lili. Lili era a moleca da vó. Oh e como a vó tentara fazer com que ela se interessasse pela beleza da existência.

Levantou da cadeira deixando a toalha embolada com a forma de seu corpo. Ela conquistaria o Mundo. Mas hoje não. Era domingo. Era chuva. Eram seis horas da tarde. Atravessou o corredor entre o quarto e a cozinha, sentindo o vento vindo da sala passar pelo seu corpo, eriçando cada pelo em cada centímetro de sua pele macia. Pegou uma tigela e encheu de cereal. Que existir de fato esperasse a segunda-feira, que o Mundo ficasse para depois.                      

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