quarta-feira, 4 de abril de 2012

Sobre a Liberdade.

Entrou no carro e bateu a porta. O banco cheirava a gasolina e batata frita. Mas que merda, pensou. Tenho que levar essa porcaria sobre quatro rodas para lavar, aspirar, encerar. Mas a vida taí. A vida me espera. E a espera não espera o carro ficar limpo. Que se foda. Jogou o papel de chocolate no chão do carro e girou a chave. O motor fingiu que ligou, mas morreu na última hora. Como tudo nessa merda dessa vida. Faz que vai e no fim não sai do lugar. Eu preciso sair do lugar. Forçou o motor. Uma. Duas. Três. Vezes. Ligou. O barulho da estrada esperando para ser corrida. Comida. Ele queria fazer amor com a estrada. Fazer amor com a vida. Sendo a vida a única estrada possível.

Procurou no rádio velho alguma música para lhe servir de trilha sonora gostosa, o som desses dias de liberdade que viriam. Parou na primeira nota de gaita que ouviu. É isso. A melodia da gaita estaria ao seu lado da mesma maneira como esteve de tantos prisioneiros. E ele era um prisioneiro. Prisioneiro de si mesmo e de sua vida de bosta. Agora ele tentaria fugir disso. Fugir dessa coisa que é estar enterrado na própria cabeça e conceitos. Como o presidiário cava túneis em direção ao sol, ele cavaria uma saída além do seu corpo. De todos esses paradigmas malditos e ideias pré-concebidas.

Pisou fundo no acelerador, passou por sinais vermelhos e por radares idiotas. Pensou, que se foda esses limites. Eles não se aplicam a mim. Não mais. Não nunca mais. Por um segundo imaginou todas as cartinhas amigáveis que chegariam em sua casa, multas e multas para pagar, pontos na carteira e advertências. Papéis da lei que jamais se cumpriria. Ele agora era um caubói. Caubói fora da lei. Montado no seu Chevette verde-musgo, não há xerife que o alcance. Eles jamais o alcançariam.

Quem são Eles? Sua mãe sempre falava sobre Eles. Sobre os Outros. Sobre as Pessoas. E ele, que era só ele, sem letra maiúscula ou caralho a quatro, cresceu com medo dEles, que mereciam todo seu respeito e obediência. Mas agora, ele estava contra os Outros, contra todos esses babacas do subconsciente coletivo. Colocou a cabeça para fora da janela. Era madrugada, luzes apagadas pela cidade, gente decente dormindo, gente de verdade vagando. Gritou. Gritou como se tentasse expulsar o câncer no seu pulmão aos berros. Gritou. QUE SE FODAM TODOS VOCÊS!

A gaita gritava junto com ele no alto-falante empoeirado. Ele queria que todos Eles se fodessem. Foi para estrada e sentiu o breu engoli-lo. Era isso. Era isso mesmo. Ele estava no caminho certo. E nem sabia para onde estava indo.




2 comentários:

  1. Entendo! Todos nós, menos os covardes, temos um grito oco, preso na gargante, prestes a explodir. Deixe que um dia ele vá. Beijo de primeiro contato, beijo de licença, beijo de primeira leitura em seu blog.Com carinho de quem gostou.:-BYJOTAN.

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  2. Adorei a presença do Johnny e do Bob ;) bela inspiração. beijos

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