quarta-feira, 11 de abril de 2012

Sobre a Liberdade (2)

Dirigiu por horas. Horas. Horas. Dirigiu até a noite virar dia e o dia virar noite por vezes seguidas. Dirigiu até sua perna doer, adormecer e doer novamente. Dirigiu sem parar e sem rumo. Não descia nos postos de gasolina por onde passava e abastecia. Era uma fuga. Não se anda, passeia, aprecia a paisagem numa fuga. Ele estava fugindo tão somente dele mesmo e é preciso ser mais rápido que a chuva e os segundos entre raio e trovão quando se está tão perto de quem te perseguiu a vida toda. Dirigiu, então, acima do limite de velocidade, do limite de si mesmo, só não ultrapassou o limite que é o céu.

O céu.

Freou abrutamente. Abruptamente – como lia nos livros velhos que sua vó lhe deixou. Abruptamente parou e desceu do carro. Bateu a porta ao sair, bem sabia que não havia necessidade ou público que o assistisse em sua loucura, mas bateu a porta do carro para fazer a cena de libertação. Parou no acostamento de uma estrada esburacado no meio do nada num país de nada, numa terra de ninguém, tanto faz, parou ali no acostamento – tinha um pouco de medo, talvez, os caminhões passavam e ele podia sentir o assovio da morte em seus ouvidos. Pois bem. Ele alcançaria o céu. Ali.

Em meio ao cheiro de diesel queimado e bicho morto na estrada, ergueu os braços. Esticou cada músculo, tendão, tudo que podia, até o último elétron de seu dedo do meio. Tentou alcançar o céu com as unhas sujas. Cavar um buraco no céu. Rasgar o céu. Destruir o céu. Ultrapassar o limite que era o céu. Gritou, gritou, gritou. Gritou pensando em si mesmo como um monte de energia mais ou menos organizada e toda essa energia crescendo até não ser mais aquela pele, ossos e órgãos gelatinosos, toda a energia era ele sendo a escada para o céu.

Quis ser o céu.

Esticava agora os tendões atrás do joelho e fazia da perna e o pé uma só reta. Fechou os olhos – diria que era para sentir tudo e ser tudo, mas a verdade que não agüentava mais ver. Não quero mais enxergar todo o lixo que não estava fora, mas dentro. Pensou que choraria se pudesse. Choraria se não fosse agora só energia. Choraria se houvesse tempo, saco e gente para lhe assistir. Pensou que talvez devesse mesmo chorar. Esticou o pescoço. Esticou o tronco, pulmão, fígado, intestino delgado, esticou o coração.

Caiu.

Caiu em meio às pedras, buracos, óleo seco no asfalto. Caiu. Ultrapassou o céu chegou ao inferno. Dois segundos. Foram dois segundos em que todos seus limites morreram. Sua dor morreu. Era dia e não havia farol, luz no fim do túnel. Só o caminhão de lona suja e mais nada. Ali, naquela estrada no meio do nada onde vidas passaram e vidas passarão, ele ultrapassou o limite da própria vida. Ficou consciente um ou dois milésimos de segundo antes que seu corpo deixasse de ser corpo enfim e fosse apenas energia de fato. Um ou dois milésimos em que sorriu – ou teve a intenção de – e pensou. Cheguei ao céu. Cheguei ao céu, seus filhos da puta.


Um comentário:

  1. Também quero chegar ao meu céu... Não me importo se for por dois segundos ou por apenas um!
    Antes pouco do que nada... Esse foi um cara de sorte, eu diria.

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