terça-feira, 3 de abril de 2012

Prato cheio

Chegou em casa e jantou tristeza.

Trabalhou o dia todo. Trabalhou para quem não lhe interessa, um trabalho que não lhe interessa. Trabalhou para deixar gente feliz – gente que preza e gente que não presta. Trabalhou para viver: além da quebra contínua de glicose, tinha que trabalhar para não enlouquecer.

Trabalhou o dia todo. Chegou em casa e jantou tristeza. Lambeu os beiços se deliciando com esse gosto amargo que tem o manjar que é não ser feliz. Saboreou como se fosse caviar e vinho envelhecido.

Deitou no sofá saciada e olhou para o teto. Que bela noite, você não acha, Maria Rachadura? Ah, não me diga que você e o Zé Mofinho brigaram novamente! Pois façam já as pazes! Isso. Assim que eu gosto: vocês dois juntos. E eu aqui. Sozinha. Fechou os olhos e engoliu os pensamentos.

Virou de lado, mas seu ombro doía. A dor que era carregar nos ombros todo o sentimento do mundo. Deitou de bruço e beijou o braço do sofá. Era esse o único braço que lhe seguraria caso um dia caísse.

Dormiu com a cabeça no peito de seu amante de madeira.
 
Acordou. Tomou café com sereno e desejou que o dia não começasse. A tristeza na panela, esperando para ser comida fria, na festa de gala que é viver e não querer.



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