domingo, 29 de abril de 2012

Iolanda


- Eu gosto da vista da sua janela.
- Como você pode gostar de um monte de laje?
- Aqueles dias em que eu não conseguia levantar da cama, eu passava horas olhando para cortina verde e imaginando o que teria além dela.
- Desculpe por te decepcionar.
Aquela risada.
- Se você pensar, essas lajes são como o mar. Mais interessantes, na verdade. É o mar de concreto e os peixes são a mente das pessoas. Cardumes indo na mesma direção por algum motivo que só eles sabem. Ou acham que sabem. Ou apenas indo. E no fundo desse mar cinza, a gente encontra restos de navios, e pneus, latões, lixo, enfim, que são nada menos do que as futilidades que entristecem as pessoas. E temos as âncoras também. Pense nas embarcações como vidas, e essas âncoras as prendem num mesmo lugar. Às vezes para sempre.
- Que peixe você é?
- Uma água-viva, talvez. Não tenho certeza se água-viva é peixe, matei mais aulas do que eu devia. Mas eu seria uma água-viva. Sempre à margem, queimando quem se aproxima.
- Você é estranha.
Estranha. Ele diz isso com tanta frequencia que eu começo a desconfiar que talvez eu seja mesmo uma esquisitinha. Ele foi até a escrivaninha e me deixou olhando o mar em que eu me afogo todos os dias.



Um comentário:

  1. Camila ! como você consegue menina ... ? :)

    "Mas eu seria uma água-viva. Sempre à margem, queimando quem se aproxima."

    Adorei a comparação das vidas, embarcações e as âncoras ... é isso mesmo.

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