segunda-feira, 9 de abril de 2012

Livros na vida real.

Era uma típica segunda-feira de abril. O mundo parecia estar ainda se recuperando do fim de semana e da ressaca moral. O tempo estava nublado, mas fazia sol. Coisa mais babaca falar sobre o tempo, mas é curioso como está sempre nublado na praça em frente ao consultório do Dr. Danilo. Dr Danilo é meu psiquiatra. É. Era sete da manhã de uma segunda nublada de abril e eu estava sentada na praça do lado de fora do psiquiatra. Tentava decidir se eu insistiria para que o doutor da felicidade me tirasse o remédio ou se imploraria por um sedativo. Não me levem a mal, família, é só TPM e revolta juvenil retardatária.  

De qualquer maneira, eu quero chegar ao ponto em que eu ergui os olhos do livro e emergi de todo aquele estupor a que o planeta Stephen King me leva, e me deparei com aquele personagem ali, sentado há alguns metros de mim (não me pergunte quantos, sou tão ruim com números quanto em relacionamentos).

Ele segurava um cigarro barato (que bem poderia ser o mais caro do mercadinho ou importado ou o caralho a quatro, mas para mim, cigarro barato tem mais a ver com literatura) em umas das mãos, enquanto a outra insistia em colocar o aquela porçãozinha chata de cabelo atrás da orelha. Havia qualquer coisa de poético nesse ato, assim como na blusa de moletom azul marinho há muito desbotada, na calça jeans com cara de quem vinha sendo usada há semanas sem descanso, no tênis marrom com o cadarço frouxo.

Coloquei o livro de lado e passei – do alto da minha falta de noção – a encará-lo. Não. Estudá-lo. Isso. Passei a estudá-lo atentamente. O que ele estaria fazendo nessa praça sem sol, nessa cidade, no meio desse monte de grama úmida? Ele bem poderia estar fugindo de casa, da escola, dele mesmo, ou talvez estivesse apenas tão perdido quanto eu. Ele parecia tão perdido quanto eu enquanto brincava com o cigarro, olhando para onde eu não sei, vendo o que eu não sei. Ele, o personagem de um dos livros que eu ainda não escrevi. Ele e seu jeito misterioso de fumar que bem poderia ser apenas preguiça ou descaso com a vida ou, sei lá, caralho, era segunda-feira! Era uma segunda feira de sol - mas nublada - de abril e eu estava sentada na praça em frente ao psiquiatra observando meu personagem em carne e osso.

Estava tudo bem ainda que não estivesse. Dr Danilo chegou e eu tive que deixar para trás mais um livro e cuidar da minha realidade, sanidade e singularidade. Mas estava tudo bem.


2 comentários:

  1. Esse livro deve ter ido para a biblioteca de Lucien, no mundo do sonhar.

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  2. Mais uma vez impressionado. Incrível descobrir como personagens que já foram de livros meus (como você no caso), rostos desconhecidos, passos sem caminhos, mentes cujo conteúdo não domino ou nem me interesso, demonstram por palavras, pensamentos tão bonitos e profundos. Momento simplório esse que você viveu, mas cheio de significância. Poucas são as pessoas que param para observar o quão intrigantes são as outras à sua volta, não somente como indivíduos, mas também como pedaços de carne e osso sem nome, sem passado e talvez sem futuro, não obstante, fascinantes.

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