quinta-feira, 29 de março de 2012

Rose, a meretriz

Rosiane tinha trinta e cinco anos, pernas tão brancas que eram transparentes, rodelas de suor embaixo do braço, a bunda mais caída da cidade e uma vida amorosa inexistente.

Ainda moça, saiu da cidadezinha no interior de Minas Gerais para morar na cidade grande com seu namorado da época, Geraldo. Rose tinha certeza que Geraldinho era o amor da sua vida, seu príncipe encantado, mesmo tendo ele aparecido no seu pangaré Tiquinho, e não no tal do cavalo branco. Seis meses morando com o príncipe, Rose descobriu que preferia o pangaré. Pegou sua trouxa de roupas e deixou bem claro que não voltava.

Rose foi dividir o apartamento com uma modelete metida a intelectual. Patrícia era linda, menina propaganda de comercial de batom, mas era burra que dava dó! Patrícia decorava as notícias sobre política e arte que ouvia na Rádio Informativa, assim como fez com todas as falas do Pequeno Príncipe. Ainda com a chupeta na boca entortando seus dentes de leite, Patty decidiu que seria Miss Via Láctea. Um dia Patrícia encheu o saco. Caiu na passarela, ficou três meses sem sair de casa. Quando saiu, foi para nunca mais voltar. Patty virou hippie. Rose teve que arrumar um segundo emprego para bancar o aluguel do apê.

Rose foi trabalhar nas sessões noturnas do Cinema Tupimirim. Ela fazia de tudo um pouco: ficava na bilheteria, vendia pipoca, bombom e confete, botava o filme para rodar, varria o tapete da entrada e, quando sobrava um tempo, Rose assistia aos filmes. Seus preferidos eram os de romance. Ah, esses Rose fazia questão de assistir todos os dias, até saírem de cartaz. Rose era só suspiros na bancada da loja onde trabalhava durante o dia – passava horas sonhando com os mocinhos românticos que via na telona. Um dia apareceu no cinema um moço galante. Falou baixinho no ouvido de Rose, e disse que ela tinha a pele mais bonita já vista. Rose se engraçou toda. Depilou o bigode, as axilas e lá onde o Bozo brinca. O rapazinho apareceu na terça seguinte. Com a noiva. Rose caiu do cavalo de novo. Quebrou a bunda e o cotovelo. Largou o cinema.

Rose estava cansada. De saco cheio. Rose estava puta. P – U – T – A. Puta de só tomar lá onde o sol não bate. Tão puta que resolveu parar de tomar e começar a dar. Rose estava puta. Tão puta que virou puta.

Rose agora era Josi Stéfanny. Fez bronzeamento artificial, trocou o desodorante, tirou o dinheiro da poupança e colocou silicone na bunda já muito chutada. Rose estava num relacionamento seríssimo com a Garoupa. Começou na Boate Batom Vermelho, dançando por dinheiro na calcinha. Depois tirou a calcinha. Cobrava uma fortuna só pela cabecinha. Só freqüentava motel de luxo, bebia o melhor champagne do frigobar e comia caviar. Achava caviar uma merda. Chegava em casa e batia um prato de ovo frito com refri de cola. Rose agora era puta famosa. Cansou de se foder na vida. Gostava mesmo era de ser fodida. 


5 comentários:

  1. Adorei esse "conto" muito bom...

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  2. Rose, Rose ...

    resumindo: ela se emputeceu !

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  3. Leia meu comentário em seu post anterior. :)

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  4. Olá, Camila! Gostei muito do seu blog: essência e conteúdo na medida certa. Parabéns pelo excelente trabalho! Quando tiver um tempinho, apareça no meu pequeno espaço; terei o maior prazer em recebê-la. Um abraço!

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  5. me lembrou a bruna surfistinha.

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