terça-feira, 13 de março de 2012

Eu, Camila L., 20 anos, viciada e agradecida




Sou viciada.

Sou viciada na droga mais forte que já passou por essa terra que o Sol queima.

Lá pelos meus seis anos de idade e de analfabetismo, eu rabiscava folhas e folhas com minhocas entre as linhas, fingindo que era uma carta da mais importante que eu estava escrevendo. Sempre adorei esse tom solene que a escrita traz para vida da gente. Já nessa época eu não gostava de gente, mas eu dava bom dia para a moça da padaria se o caso fosse ganhar um gibi depois. Foi assim que eu me enfiei na literatura e foi assim também que eu aprendi a socializar por interesse.

Quando eu estava no segundo ano do ensino fundamental, a professora Griselda-que-rodava-a-baiana ensinou para a turma o que era poesia. "Poesia são versos com palavras que rimam no final" Pronto. Era só pedir, eu fazia poesia para quem quisesse. Qualquer assunto era assunto para quadras. Fiz poesia para vô, vó, tia, tio, até sobre a Arca de Noé e a salada de alface da minha vó. Enquanto as crianças corriam atrás uma da outra, as palavras corriam da minha boca atrás de algo que eu não sei até hoje o que é.

Aos dez anos eu resolvi que poesia era pouco. Como todo adicto, eu queria mais. Comecei a escrever um livro. Depois outro. Depois outro. Nunca terminei nenhum dos três, ou quatro, ou nove. Tenho personagens morando na minha cabeça; e alguns dias até eles me abandonam. Na mesma época, enquanto minhas amiguinhas de escola se apaixonavam pelos Hansons, Leo di Caprio ou Felipe Dylon, eu tinha um amor platonicissímo pelo Pedro Bala. Sim, eu li Capitães da Areia aos dez anos. Eu apenas superei essa paixão anos mais tarde, quando meu pai me aprensentou o Holden Caulfield. As aventuras da minha infância eu vivi com o Tom Sawyer e o Huck Finn, embora eu também me divertisse à beça no sítio da Dona Benta.

Do sítio mais famoso do Brasil, eu fui parar na Estação Zoo. É claro que viver com a cara nos livros não me tornaria uma adolescente saudável psicologicamente. É sempre perigoso demais pensar por conta própria, e é inevitável questionar o mundo quando você já esteve em vários dele. De companheira das tardes de sol e tédio, a literatura virou a sacola de ouro onde eu vomito todo o lixo que há em mim. E que me dói. Me machuca. E me condena a viver presa em mim. Meus versos não eram mais sobre a mãe mulher do pai; eles pingavam sangue e toda a dor e frustração que pode caber numa criança de treze anos.

Sou viciada. Viciada em literatura, em criar, em imaginar. Em viajar na imaginação de segundos e terceiros e qualquer um que chega a mim e diga que tem uma história para contar. Escrever é a única coisa que eu sei fazer. É a única coisa que eu não mudei de ideia sobre gostar, desde pessoas a cores. Eu descrevi em parágrafos curtos minha história de amor com os livros, na esperança de que vocês percebam como é importante cada um que lê, guarda e sente essas minhas palavras capengas. Você, caro leitor que tem meu blog na cabeceira, ou você, querido que o lê todas as manhãs, vocês são meus traficantes de coragem.

5 comentários:

  1. Isso é uma verdadeira e saudável paixão

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  2. Que legal você ter crescido fazendo poemas. Acho bem bacana quando aprendemos desde cedo que o universo literário é bem melhor que o mundão lá fora. E mais legal ainda quando temos heróis da nossa infância, personagens criados por escritores malucos que ficam em nossa cabeça. Eu posso dizer que um deles ainda me acompanha. No alto dos meus quase 26 anos, oito deles dedicados ao mercado de trabalho, incluindo uma faculdade iniciada e desistida e outra em curso, sabe quem estampa meu caderno: ninguém mais, ninguém menos, que o melhor detetive do mundo, criado por um certo Bob Kane: o Batman. E espero que você continue a sangrar palavras aqui, pois seu blog é, sem dúvida, um dos, se não o, meu preferido.

    Ih, caralho, acho que vi poesia aqui no seu texto!

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    1. Viu poesia no meu texto? haha como assim?
      É, acho que literatura é a única coisa na minha vida que eu não enjoei, desistir, cansei.

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