domingo, 25 de março de 2012

Chave, chuva, domingo.

A porta trancada. Chove. E a porcaria da porta está trancada. A porta está sempre trancada desde que você se foi. Você costumava me dizer com palavras cruéis e olhares crus o quanto eu sou insegura. Como esse medo me tranca dentro de mim. Dentro da minha cabeça. Dessa cidade. E agora que você se foi, dentro dessa casa. Eu tranco a porta com medo de. De. De qualquer coisa que eu não sei bem o que é. Medo, talvez, de que alguém entre e me roube. Me roube de mim como você fez um dia. Me roube e depois vá embora, me deixando aqui, uma bolsa vazia. Sem identidade, coisas de valor, sem a dignidade de ser inteira.

A chave. Rímel, batom, caderneta de recados, celular, bolacha, antidepressivo, cadê a merda da chave? Livro, absorvente sem abas, MP3, tarot, guarda-chuva. Ah. O guarda-chuva está aqui. Chove há uma semana, e eu tenho chegado em casa encharcada até os ossos, sistema nervoso e vasos menores todos os dias, e o guarda-chuva está aqui, perdido nessa bolsa que mais parece minha cabeça ou o Triângulo das Bermudas, ou qualquer um desses lugares que a gente se perde. Chove tanto, e inunda a cidade, o estado, o país.


Eu lembro uma vez, mais ou menos à essa época do ano, em que estávamos naquele sítio naquele lugar e chovia tanto, que você me disse que seu coração seco já estava afogando. Eu achei aquilo tão engraçado. Como pode um coração afogar? Pois - você me disse - meu coração está afogado de amor por esse dia. Por essa vida, mas, especialmente, por esse dia. Olhe para o horizonte. Olhe até onde você puder. O que você vê? Eu não vejo nada. Eu não vejo horizonte algum. É excitante não enxergar a estrada, a luz no fim do túnel, navegar no breu. O farol quebrado. Quando não há o que nos guie, aí sim andamos somente com nossos pés. Estou apaixonado por essa ideia. Estou apaixonado por esse lugar e essa chuva. Queria poder ficar aqui para sempre. Só sentado. Olhando sua pele em tons frios e te sentindo pensar mas em que inferno de rapaz eu fui me meter. Tudo bem.

Tudo bem. Você disse que está tudo bem. E eu acreditei que tudo estaria tudo bem. Ainda que o sol saísse, o farol ligasse, e a luz voltasse para o nosso túnel. Mas a luz no fim do túnel nos diz que há, de fato, um fim. O fim que seria aquela tarde, o seu tudo bem, o fim do caminho que é a chegada do horizonte. Chove por dias. Eu não vejo o horizonte. Mas esse é o fim. Só o fim. E eu só queria um chá, uma cama e que chovesse pelo resto dos tempos para que não houvesse um novo começo, um novo sol, uma nova manhã serena e límpida. O gato mia dentro de casa e eu não acho minhas chaves.

Um comentário:

  1. Minha escritora sem livros publicados favorita.
    Já dá pra publicar uma antologia.

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