domingo, 18 de março de 2012

A Carência vai ao cinema.



Era sábado à noite e o shopping estava lotado, o cinema estava lotado, eu estava lotada. De fast food, de sono, de carência. Eu poderia facilmente ser a definição exata para o adjetivo "carente". Carente de carinho, carente de afago, carente de vontade da vida, da noite, de paciência com essa gente babaca andando numa linha idiota que eles sabem onde vai dar e estão ok com isso. Carente de gente de verdade. Carente de mim. Porque eu estou aqui querendo o tempo estar em outro lugar. 

Era sábado à noite e eu entrei naquela sala de cinema escura e gelada, procurando uma boa dose de ilusão, assim o monte de gente ali que eu não conseguia ver o rosto. Não era aquela mesma sala, ou aquela outra, ou aquela lá. Não era a mesma gente, o mesmo filme, o mesmo clima entre eu e você, eu e o mundo. Mas eu olhei para o canto esquerdo e lembrei de ter, um dia antes daquele dia há meses atrás, pensado como a gente está sempre começando alguma coisa sem saber onde vai dar. Naquele dia, naquele mês, naquela outra sala, assistindo aquele outro filme, eu não poderia imaginar que o nosso barco afundaria no meio do oceano que somos nós dois.

Chacoalhei a cabeça como se tivesse um pernilongo irritante na minha orelha. Porque é isso que você é: um pernilongo irritante e eu quero mais é que você morra com uma chinelada. Não porque eu seja uma recalcada, despeitada, mal-amada. Mas porque eu tinha aquilo. Eu tinha uma poltrona de namorados no cinema e eu tinha sua pipoca para roubar e alguém para pegar meu chiclete quando eu não o quisesse mais, e agora eu estava ali, com os dois braços da cadeira levantados e eu estava me sentindo tão mais confortável. A poltrona de namorados é uma porcaria, essa é que a verdade. Mas eu não queria estar confortável, comendo a minha própria pipoca e deixando um monte de refrigerante no copo. Eu te odiei por isso. Eu me odiei por isso.

Me odiei por não saber ficar. Por não saber me dividir com outra pessoa, por achar a poltrona de namorados tão desconfortável e por gostar tanto dessa minha bolha idiota. Me odiei por enlouquecer só porque o mundo me dói. O mundo dói para todo mundo, por que inferno eu tenho que ser essa bebë chorona? Odiei tudo ali. Odiei não odiar nada de fato. Odiei não ter amor e não ter raiva. Não ter nada a não ser um estômago embrulhado por negligenciar o Lexapro.

O filme era uma comédia romântica boboca sobre o cara sacana que vira um fofo quando a menina linda, mas estranha, dá um beijo nele. Fui dormir pensando quando é que toda essa minha esquistisse vai me render o tal do príncipe bad boy ou o príncipe gentleman ou que seja o cavalo branco, marrom, manchado, que me leve para os sertões do mundo e me tire daqui. De lá, daquela poltrona para um. Ou, pelo menos, qualquer coisa a mais do que textos sem sentido e sem coerência, e horas de terapia, noites de insônia e, é claro, tanta carência do mundo.

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