terça-feira, 6 de março de 2012

Canino de Cristal

Sem nada no peito, só esse coração batendo de vez em quando. E a lembrança que daquele canino que eu inventei. E, no fundo, isso é tudo o que eu quero: um amor com um canino que enrosca no canto da boca. Aquele dente amarelado de café, de cigarro, de vida, sendo esquecido ali do lado de fora, enquanto você me conta tudo que acontece aí do seu lado de dentro. Dos livros que você já comeu, das decepções amargas que você já bebeu, dos momentos lindos que você já cheirou. Felicidade em pó. Altamente viciante, você me diz. Conheço gente que mata por felicidade. Mata a pessoa que mora dentro deles. Eu só cheiro em ocasiões especiais. Acho mais elegante ser triste, entende?

Eu digo que não, não entendo. Não entendo como pode existir um mundo inteiro dentro de mim, como uma floresta dentro de um aquário. Já viu? Quando eu estava na oitava série, ou foi sétima, ou sei lá, a gente construiu um ecossistema dentro de uma caixona de vidro. Até chovia. E eu imagino minha vida crescendo loucamente dentro do meu corpo, todas as aves-sonhos, as ambições-sanguessugas, os elefantes-frustações. Tenho baratas-ódio vivendo no meio das minhas estranhas, e algum tipo de cobra-desespero rastejando dentro das minhas veias. Até chove. Tenho uma puta sorte de não ter sido destruída por uma furacão. E você aí me dizendo que acha mais elegante ser isso ou ser aquilo?

Eu falava sobre o tal do dente canino. Acho que a beleza está nos detalhes. Grande clichê, você me diz. Tão grande quando aquele lustre de cristal pendurado no meu pescoço. Meu lustre de cristal tão mais lindo que esse seu caminhãozinho de detalhes. Meu caminhão que me leva mundo à fora por essas estradas tão esburacadas. Fugindo, você diz. Fugindo por essas estradas que te levam sempre ao mesmo lugar. O mesmo lugar é sempre aqui, querido, daonde você não sai e eu não te alcanço, porque esse seu lustre gigante te impede de caminhar e me afasta com suas pontas afiadas demais. Não são as pontas desse carvão lapidado te espetando do lado de fora que te fazem chorar, meu bem, são as raízes de tudo de ruim que você deixa crescer dentro do seu coração.



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