domingo, 5 de fevereiro de 2012

Pequeno orgasmo cotidiano

Era sábado à tarde e eu estava no shopping. Eu tô sempre no shopping andando como um ETzinho entre tanta gente que não sabe o que quer, mas tudo bem. Sábados à tarde não existem, a gente sente o dia passando mais ou menos como deve o relógio correr no purgatório. Imagino sempre que se algum dia o tempo deixar de existir, vai ser bem entre o Lata Velha ou Soletrando, ou qualquer outro quadro do Caldeirão do Huck.
Minha mãe fuçava fre-ne-ti-ca-men-te nos cabides de peças com até 70% de desconto, em busca de alguma coisa -qualquer uma- que prestasse. O paraíso do consumismo, a festa do cartão de crédito. E o inferno para minhas crises cada vez mais frequentes de enxaqueca implorando para eu me enfurnar num quarto escuro e viver o resto da minha vida como um morcego. Era uma dessas lojas de departamento, a fila para pagar era quilométrica, como qualquer outra fila, e a mocinha do caixa era tão mal-humorada e tão lerda quanto qualquer outra mocinha do caixa. As pessoas esperando com as mãos cheias de roupas e cara de bunda.
Deixei minha mãe sofrendo sozinha na fila e fui sentar no banco em volta da fonte com pássaros em MDF cuspindo água. Pássaros presos em meio a vitrines de conceitos e um bando de gente babaca. Me sinto pássaros em MDF de vez em quando. Cruzei as pernas como se eu fosse uma indiazinha naquela selva de aves em madeira e loucura burra e fiquei olhando as pessoas passarem. Meu esporte favorito: observação.
Simplesmente adoro ficar olhando as pessoas e procurando aquela beleza que todo mundo tem, colocando todas elas numa fotografia em preto e branco, saturada para todos os pequenos defeitos saltarem aos olhos como arte. Vi uma menina com o nariz tão perfeito que deveria estar exposto em algum Museu de Artes do Corpo Humano. Uma outra menina branquela, com algumas sardas clarinhas por todo o rosto e a boca de sorriso torto que é sempre meu sorriso favorito.  Vi gente feia também. Feia de alma, de aura, de sorriso. Vi gente que poderia ser uma paródia grotesca de alguma das Pinturas Negras do Goya.
E aí ele apareceu. Julian Casablanca vestindo a camisa do São Paulo Futebol Clube e bermudas nesse calor de Mordor que anda fazendo nos últimos dias. O bonitinho com cara de roqueiro que é minha paixão de corredor da empresa, entre as inúmeras idas até a máquina do café, entre um ou outro olhar perdido na mesa do refeitório. Aqueles olhos fundos e olheiras de menino descuidado, que passa a noite em claro tentando entender que merda é que essa que tá acontecendo ou, quem sabe, escrevendo músicas bonitas para alguém que um dia ele vai conhecer. Ou já conhece. Ele tem aquele cabelo do jeito que acordou, gostoso de se ver, esperando um cafuné para ajeitá-los na cabeça.
Ele vinha andando e me olhou - deve ter me reconhecido das filas do restaurante na hora do almoço. Baixei os olhos para minha sapatilha (a sapatilha de cristal), como se ela fosse a coisa mais interessante que já vi. Eu tô sempre desviando os olhos do que pode me dar prazer, nem que seja um prazer instantâneo. Só porque dá medo demais de sentir aquela pontadinha de felicidade, que a gente nunca sabe quando pode virar um balão gigante de euforia. Só porque esse balão pode estourar na minha cara e virar uma estaca de decepção enfiada no meu intestino.
Levantei a cabeça. Ele ainda me olhava. Aquele olhar de rockstar. Aquele olhar que me faz pensar em praia e jaqueta de couro, cerveja gelada na caixinha de isopor enquanto a vida vai rolando em cores lomográficas. Me olhou e me sorriu. Sorriu com os olhos mais do que com os lábios. Aquele sorriso de eu te conheço, eu te vejo, te observo. E sei que você me conhece, me vê, me observa. Eu sei quem é você. Só não sei se devo.
Sorri de volta. Meu olhos presos naqueles olhos e aqueles olhos sendo só aquilo no mundo inteiro por uns três ou quatro segundos. Não existia mais pássaro nem gente babaca nem enxaqueca me torturando. Esses olhares que são mais que transas selvagens no motel barato cheio de barata. E ele foi embora. Meu Cefalium concentrado foi embora. Segui com os olhos aquela figura esbarrando no meio de tanta gente que não sabe o que quer, mas tudo bem. Olhando hipnotizada para aquelas costas de homem pedindo beijo e para aquela tatuagem na perna que eu não sei o que é, desejando muito poder descobrir um dia e esfregar meu pé gelado ali.
E esse foi meu pequeno orgasmo do dia. O orgasmo que é transformar tudo em romance e voltar sozinha para casa e a minha cama cheia de livros idiotas. O meu eu mole e bobo lá de dentro gritando volta! e depois se satisfazendo com o amor que nem chegou a ser, a dor que não veio e o balão que não estourou.

3 comentários:

  1. Queria vomitar palavras como você. Dificilmente me concentro em um fluxo narrativo como em seus textos. Belíssimo.

    Abraço.

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