quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Love sick


Entra pela porta da frente desse meu apartamento de uma porta só. Larga as chaves do carro no sofá de liquidação já gasto por todas as bundas que passaram por aqui e no fim viraram pés na minha própria bunda. E eu adoro suas chaves perdidas nos vãos entre as almofadas. Adoro qualquer coisa que te faça ficar uma hora a mais, um dia a mais. Dez minutos a mais.

Abre a geladeira e pergunta por quê nunca tem nada ali dentro. Para que você usa isso aqui? Para pensar. Você quer ser estranha, menina, mas você não consegue, você é só como as outras. E é isso que te deixa puta e te leva à terapia. Você não precisa se encontrar. Você sabe muito bem onde está. Você quer que os outros saibam também. Pega o iogurte esquecido na gaveta de frutas e abre com os dentes. Aquele canino que enrosca na sua boca enquanto você me fala sobre o seu
dia de merda, sobre como você tá cansado de tudo isso. Que saco, você me diz. Que puta saco.

Liga o ventilador e se joga no sofá maior. Liga a TV naquele canal de esportes idiota. Futebol europeu. Adora a Europa, adoro Toledo, adoro as ruazinhas perdidas de Paris. Mas futebol é um puta tédio. Vem cá, menina. Deita do meu lado e me deixa te fazer um cafuné. Você anda estressada demais, rabugenta demais. Olha, ainda vai chegar seu dia. Eu sei que vai. Você vai ser grande. Você só precisa parar de ver as pedras. Não tem pedra nenhuma na sua estrada, me diz naquela voz rouca de cantor de folk. Coloca num filme bem bonito. Vai, pára de ser chato. Me deixa chorar a noite toda como uma boboca.

Acontece que você não chora. Você nunca chora. Você é capaz de derramar rios dos seus olhos e não chorar. Lá dentro, bem lá dentro você não chora. Não chora porque sabe que não caiu e, se caiu, sabe que vai levantar. Você conhece a sua força, menina. E é por isso que não chora.

Tem uma mancha na parede logo atrás da TV vinte e nova polegadas. Será que essa mancha sempre existiu? Engraçado como a gente nunca enxerga o que a gente vê. Eles têm pernas bonitas. Quem? Os jogadores, meu bem. Adoro perna de jogador de futebol. Adoro quando a câmera foca nesses rostos suados. Suados como devem ficar na hora do amor, do sexo, da adrelina que é estar em outra pessoa. Mas futebol é um puta tédio. Me olha com aqueles olhos divertidos e diz. Você poetisa demais. "Adrenalina que é estar em outra pessoa"? Vai, fala logo: o tesão que é meter.

Fala. Grita. Ele senta no sofá e me olha como um menino que acabou de inventar a brincadeira mais divertida do País das Brincadeiras Divertidas. Grita! EU QUERO METER. Vai!

Não! Pára de ser bobo. Deita de novo e me faz mais cafuné. Não! Você vai ter que gritar. Quero ouvir você falando chucramente. Chega de poesia, menina! Chega dessa merda que te deprime. Poesia não me deprime. Deprime sim. Você vive disso. Você vive para isso. Para essa coisa de poetisar toda a merda que acontece com você. Você chega a sentir um prazer maluco quando a vida te fode, você usa essa foda para criar. Você gosta de estar fodida.

E-U-Q-U-E-R-O-M-E-T-E-R!

Não, assim não. Você tem que gritar com vontade! Tem que gritar com tesão!

EEEEEU QUEEEEERO METEEERRRRR!!!

Tá bom agora? Agora sim. Você é um bobo. Você é artista. Sou é? É. E o que tem de ruim nisso? Nada. Se eu te pedir pra ficar nesse sofá pro resto da vida, vou parecer muito idiota? Só um pouco. Tá. Então fica só o tempo que der. Que você puder. Que a gente quiser. Vou pedir uma pizza, topa? Não. Eu tenho que ir embora. Amanhã tenho que estar no escritório às seis.

Te vejo sábado às nove? Vê.

O cheiro fica no meu cabelo. No sofá. Os móveis enchendo a casa vazia. A porta ali. Só ali. Estupidamente ali. Fechada. E eu aqui. Fechada. Coloco Bob Dylan no stereo. "I spoke like a child; you destroyed me with a smile" . Love sick. Já me aconteceu 99 vezes.



2 comentários:

  1. Adorei a parte sobre o não chorar. Bom texto! Gostei.

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  2. Muito, mas muito, poetizante, e sick.

    Excelente, Camila.

    Abraço.

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