sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Laranja azeda



Eu gostava de um cara. Eu costumava gostar de vários caras, uns mais que outros. Eu gostava de quem parecesse não gostar de mim: pra quê eu vou querer alguém que já me quer? Todos os livros do Sidney Sheldon que eu devorei me fizeram acreditar que só é amor quando a gente sofre. E a gente não sofre quando outra pessoa ama a gente; então eu sempre tinha o amor da minha vida até o dia que ele me mandasse a primeira SMS apaixonada.
Mas esse cara era especial: ele era o tal do encaixe perfeito, a metade da laranja. A gente sentava no banco da praça e eu me sentia mais feliz ali do que na Arezzo em liquidação. Ele puxava o botão do meu vestido, como que querendo me provocar. Mordia minha boca e brincava com o laço da minha calcinha por cima da roupa. Eu me fazia de Virgenzinha Maria. Camila, a Santa do Pau Oquissímo. Eu queria ir com calma porque eu queria que desse certo; a minha vida toda eu fui feito um furacão e acabei sem uma única parede em pé dentro de mim. Tudo era tesão demais naquele banco embaixo do poste de luz com defeito. Tesão pela vida, tesão pelo amor, tesão por aquelas pintinhas perto do olho que eu adorava me perder. Tesão por gostar de alguém e esse alguém gostar de mim.
Ele dizia que me amava. Que passaria o cadeado na nossa geladeira para proteger sua comida dos meus ataques sonâmbulos. Me pegava em casa no seu fusca mais velho que nossas idades somadas (e apertado demais para dar amassos em ruas escuras). Ele contava as piores piadas que eu já ouvi. Eu brigava com ele e falava as maiores barbaridades que alguém poderia dizer a outra pessoa, e dizia do alto da minha chucrisse hereditária: "você é um filho da puta e você tem medo de se envolver. Some da minha vida, me deixa em paz". Mas ele ficava, me abraçava e eu sentia que estava no lugar certo. Até hoje eu não sei bem porquê. Éramos nós. E eu era feliz só de saber que ele existia.
Até o dia que ele existiu no bar com outra. Eu pensei que fosse chorar a noite toda e por vários meses e jurei que nunca mais ia cair nesse papo de amor, jurei na minha inocência de primeiro coração partido. Nesse dia eu comecei a odiar piadas sem-graça, carros velhos e luzes piscando.
Comecei a me perguntar onde é que está a porcaria da metade da minha laranja. E se eu estiver no saco errado e a minha metade foi parar lá do outro lado do país, perdida no meio de baianinhas, tentando se encaixar num corpo cheio de curvas, quando devia estar grudada nessa tábua caipira? E se eu for uma laranja podre que teve a outra metade amputada e jogada no lixo, fadada a me esfregar em outras metades estranhas, procurando alguma que me aceite? E se eu for um limão-cravo idiota, confundindo os mais desavisados?
Naquele dia em que eu pensava no amor da minha vida dividindo a mesa do bar com outra, eu tive certeza de que. Eu sou um limão. Um limão inteirissímo preso num saco cheio de laranjas despedaçadas. Laranjas que não me cabem, me fazem perder o gosto e não me suportam: me espremem e me tomam com tequila, porque não querem me engolir assim tão pura. Tão azeda. Porque é mais fácil me aguentar quando a noite é de festa.
Não tenho encaixe perfeito porque não me falta nada. Não quero passar minha vida grudada a alguém no banco da praça. Não que eu tenha azedado porque o fulaninho fã das laranjas me colocou um par de chifre nada fofo na cabeça, ou que o amor é uma merda e todos os caras são iguais. Porque não são. Tem cara-laranja-podre, que te apodrece junto e você nem percebe. Tem o cara-laranja-melação, que gruda em você, sendo a metade certa ou não. Tem o cara-laranja-encaixa-em-todas, é desse que você e todas aquelas vacas vão gostar. E ele vai decidir sozinho que não é você a metade dele. Tem o cara-laranja-tenho-minha-metade-mas-prefiro-experimentar-as-outras, esse eu não preciso descrever.
O que eu quero é quem me quer numa limonada suíça, seja laranja ou limão, ser mistura homogênea eu e você, com leite condensado que é pra gente ser um pouquinho mais doce todos os dias, ou qualquer outra coisa - para as mentes mais maliciosas. Eu quero ser tomada pela vida em Paris, no Amazonas, no nosso sofá num dia de verão. E se não for limonada, serei um limão rolando inteiro pelo mundo, fora do saco de gente babaca pela metade, porque a vida é leve para quem não se deixa. Mas não serei laranja. Porque quando você é laranja, um dia você vira bagaço.



P.S.: querido, a outra na mesa do bar já não era laranja há tempos. Só dizendo.

3 comentários:

  1. O limão pode se tornar laranja dependendo do enxerto. (.)

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Acho que esse post diz td oq to sentindo hj!!

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